“O que fizemos foi muito positivo como jornada de início de uma instituição”

“O que fizemos foi muito positivo como jornada de início de uma instituição”

Está de saída da liderança da Câmara de Comércio Angola-China que ajudou a fundar. Cumpriu apenas um mandato e, apesar dos estatutos permitirem uma recandidatura, diz que é chegada a hora de sair pela porta de frente e deixar gente mais nova cuidar da instituição que considera ter revolucionado o movimento de fundação de câmaras bilaterais no país

Dr. Arnaldo Calado pode apresentar-nos à guisa de balanço as principais realizações do seu mandato à frente dos destinos da Câmara de Comércio Angola-China?

É muito difícil eu próprio fazer o resumo do meu próprio trabalho, isso pode parecer falta de modéstia, mas posso dizer apenas que foi um processo muito difícil. A criação da câmara foi mesmo difícil mais do que as pessoas podem imaginar. Para teres uma ideia, devo dizer-lhe que, no dia da tomada de posse, todos os governantes nacionais que convidamos não apareceram, porque foram à posse de uma outra câmara Angola-China criada pelos chineses. O antigo embaixador da China em Angola nunca sequer nos cumprimentou, porque foi informado por indivíduos mal-intencionados de que o que o Calado quer fazer não interessa.

Criamos a câmara numa altura que havia uma corrente de assassinatos contra cidadãos chineses. Dois dias depois de tomarmos posse, fomos a um velório de cidadãos chineses assassinados. Portanto, não foi um processo fácil, daí que, na minha tomada de posse, tinha prometido que se conseguisse colocar a instituição no ponto ambicionado faria apenas um mandato e, de facto, assim está a ser.

Para continuar a levar-lhe a entender o grau de dificuldades no surgimento da câmara, devo dizer- lhe ainda que tivemos 40 vice- presidentes, repartidos em 20 angolanos e outros 20 chineses, para além de secretários. Portanto, fundamos uma instituição inclusiva e, para ela poder funcionar, nós criamos delegados provinciais, delegados na China, um Alto Conselho, tivemos de promover iniciativas várias, em que se inclui estudo de mandarim. Participamos em vários eventos internacionais, enfim…Tenho a sensação de que podíamos ter muito mais e melhor, mas o que fizemos, em minha opinião, foi muito positivo, como jornada de início de uma instituição.

Podemos falar de número de filiados e volume de negócios gerados durante a etapa que agora termina?

Quanto a sócios, o numero é volátil, mas chegamos a ter 600 empresas filiadas, sendo que pelo menos 300 eram chinesas. Quanto ao volume de negócio, digo, com sinceridade e para não errar, que vou preferir mandar-lhe documentos de apoio para fazer você mesmo as contas, sob pena de errar porque foi um volume significativo. Entretanto, posso dar umas pistas.

Por exemplo, tínhamos como meta a criação de cerca de mais de 3 mil e quinhentos postos de emprego directo e mais de 2 500 indirectos em cada ano. Esta meta foi concretizada todos os anos até acontecer a pandemia em finais de 2019 início de 2020, quando os números caíram drasticamente para algumas dezenas. Só por aqui dá para ver a grandeza do volume de negócios que intermediamos entre a China e Angola.

Portanto, está de saída, pensamos nós, depois de ponderar. Aparte o facto de estar a cumprir uma promessa feita no inicio das suas funções há alguma razão, ainda que velada, que pode, igualmente, lhe ter levado a esta decisão?

Disse e bem: é uma decisão bastante ponderada. Mas posso dizer-lhe que geri uma estrutura com 40 vice-presidentes e muitos deles jovens. Mesmo assim, levamos a que muitas pessoas vissem e percebessem o que é a câmara! Agora não faz sentido para mim, nesta altura que até estamos a enfrentar coisas novas, como por exemplo adaptar-se ao teletrabalho, ser eu no alto da minha idade a dirigir a instituição. Penso ser sensacto entregá-la (a instituição) a uma pessoa mais compatível como estas novas realidades e talvez eu esteja na posição de consultor, conselheiro… Portanto, poderei muito e penso muito sinceramente que é preciso saber sair. O mais importante nas instituições colectivas não é saber entrar. Costumo dizer que quando queres ter uma árvore semeias um bagozinho e sem barulho. Regas durante um tempo e depois transforma-se numa árvore frondosa e que em caso de querer cortá-la já fará um estrondoso barulho.

Portanto, é preciso, acima de tudo, saber-se sair e acredito que chegou a minha vez, com muita pena, porque acabamos de criar a Federação das Câmaras com honras de presença de S. Excelência o Presidente da República em 30 de Abril de 2018, que eu presido e que tenho de deixar o cargo a meio para o meu substituto na câmara, por inerência de funções. Ficam os feitos como, por exemplo, o facto de assumirmos o 30 de Abril como dia das câmaras em Angola. A vida é assim…

Portanto, quer sair pela porta da frente, retomando uma gíria muito conhecida?

Eu penso que o facto de sair pelo próprio pé e vontade e não por outras razões e nem conflitos penso ser muito bom. O resto deixo por sua conta e dos leitores e filiados… (Risos).

Estou lembrando do início da cooperação mais intensa entre Angola e a China no final do conflito armado. As opiniões dividiam-se entre os que apoiavam e os que eram contra com o argumento de que estamos a abrir o país a uma franja de emigrantes problemáticos. A câmara viveu também estes argumentos de razão. Hoje qual é analise que se faz quanto a esta trivialidade?

Penso que o debate continua e depende muito de que lado nós estamos. Veja, por exemplo, agora com a Covid-19. Quem nos estendeu primeiro a mão quanto à necessidade de meios para biossegurança?

Eu, pessoalmente, tenho a minha opinião e, muito sinceramente, acredito que Angola precisa de todos os cidadãos deste mundo, desde que cheguem realmente com intenções de ajudar, de trabalhar e edificar o país, porque o inverso também se aplica. Acredito que os chineses têm uma política de apoio, não só para Angola, mas para a Africa no seu todo. Entretanto, é preciso encontrar um ponto de equilíbrio. Deve ser a Africa a ter organização e instituições fortes para encontrar na China um parceiro para o seu desenvolvimento. Os chineses têm uma vantagem porque oferecem uma multiplicidade de opções. Se disseres que queres um gestor de cemitério eles hão-de ter a solução adicionada à tecnologia funcional. Se queres um prédio com dezenas de andares, eles certamente terão a forma de o fazer…Enfim, os chineses têm soluções, mão-de-obra e, acima de tudo, atitude na procura de soluções.

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