Igreja Católica lança grito de socorro para as famílias afectadas pela seca nos Gambos

Igreja Católica lança grito de socorro para as famílias afectadas pela seca nos Gambos

A falta de chuva, que se regista um pouco por todo o país, está a agravar ainda mais a situação socioeconómica da população nos Gambos, sobretudo das minorias, que se alimentam de frutos silvestres para aguentarem mais um dia. A boia de salvação tem sido a casa paroquial

Gambos é um dos 14 municípios que compõem a província da Huíla, localizado a 150 quilómetros a sul do Lubango, capital provincial. As várias alterações climáticas tem feito do município o mais castigado pela seca cíclica em toda a província, provocando fome no seio das famílias, principalmente as pertencentes às comunidades Himbas e Herero, que diariamente se dirigem à casa paroquial da Igreja Católica para a busca de alimentos.

Nos últimos tempos, a fome agravou- se por ausência de chuvas no município dos Gambos . Está igualmente a provocar um êxodo rural, com principal incidência para as localidades da Taca, Pokolo e de Tyitongotongo.

Nestas localidades, abundam alguns frutos silvestres que têm servido de escapatória na falta de comida, que assola principalmente as mães que amamentam e as crianças.

Ngongo, um dos frutos silvestres locais, já não existe, uma vez que a sua colheita foi fraca por falta de água, conforme conta Katumua Katila. “Nós quando não temos comida, nos alimentamos de ngongo, e tabaibos, mas por falta de chuva nem isso temos para comer. Por isso, temos ido todos os dias à vila para pedir comida” revelou.

Por esta razão, diariamente, muitas pessoas das famílias minoritárias dos Gambos abandonam as suas localidades para se instalarem na Administração Municipal dos Gambos, com o objectivo de pedir ajuda alimentar às autoridades locais.

Esta atitude nem sempre tem agradado às autoridades administrativas dos Gambos, que muitas vezes respondem de forma coerciva, apesar da aparente necessidade alimentar daqueles cidadãos.

O vigário da Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, na vila de Chiange, sede municipal dos Gambos, José Vinte Cordeiro, denunciou à imprensa que a Administração Municipal dos Gambos não tem atendido aos pedidos de ajuda das comunidades pelo facto de, sempre que as mesmas se dirigem às instalações daquela instituição pública, serem escorraçadas.

Muitas vezes orientam aos esfomeados que regressem às suas aldeias, mas, como disse o padre, “ninguém consegue caminhar 50 quilómetros de barriga vazia”.

“Estamos a viver uma situação muito difícil por causa da falta de chuva aqui nos Gambos. Sabe- se que as chuvas não são regulares, mas este ano a situação piorou e as pessoas abandonaram as suas aldeias à procura de alimentos. Nós recebemos diariamente 15 a 20 pessoas pedindo comida, com maior realce para as mães com crianças ao colo”, disse.

O sacerdote acrescentou que a situação é preocupante, pelo que apela às autoridades municipais, provinciais e centrais a prestarem uma maior atenção, sob o risco da situação tomar outros contornos.

Por outro lado, José Vinte Cordeiro apela ainda a intervenção do Governo central e a comunidade internacional para se acautelar os efeitos da fome que nos Gambos assola mais de 90 mil famílias.

“A situação social dos Gambos não é de hoje. Não é de se esperar por mais tempo, ela é urgente, pelo que temos que apelar às organizações, às pessoas de boa vontade para nos ajudarem. Nós todos os anos lançamos este apelo, mas este a falta de chuva agudiza ainda mais a situação” disse.

De forma a mitigar os efeitos da seca, continuou, é necessário apostar localmente na criação de condições de abastecimento de água, nas comunidades, com vista a fomentar a agricultura de subsistência no seio das famílias.

João Katombela, na Huíla