Aumentam crianças arrastadas para as vigílias no “Morro dos Veados”

Aumentam crianças arrastadas para as vigílias no “Morro dos Veados”

As actividades que eram, inicialmente, reservadas para jovens, adultos e idosos, de algum tempo a esta parte, está a ganhar um novo registo com a presença massiva de crianças menores de 12 anos levadas por pais, que, a dedo contados no escuro, passavam dos 50

Algumas mães com as quais a reportagem do Jornal O PAÍS conversou, na noite do último Sábado, mais concretamente entre às 18h:30 e 21 horas, alegam que levam os seus filhos para as cerimônias do conhecido Morro dos Veados, no distrito com o mesmo nome, na zona costeira do bairro da Bela Vista, em Luanda, para receberem as bênçãos e graças milagrosas que ocorrem aí durante a madrugada.

“Sentimos que, quando vínhamos aqui sozinhas e vínhamos pedir pelos nossos familiares de casa e não só, aquilo que pedíamos acontecia em grandes proporções para nós e numa dimensão muito reduzida para os nossos meninos, então resolvemos trazê-los, para eles beneficiarem directamente das graças”, disse Eliana Chimuchili.

Comparando a casa e a Igreja com o monte, Eliane Chimuchili avançou que, neste último espaço, se sente mais à vontade e livre de consciência para pedir ao Criador.

Também invoca essa razão e o facto de acreditar nos milagres como os factores que a motivam a trazer quase toda a família de casa à referida colina.

Quando vê os seus filhos bem animados, num lugar onde, a olho nu, se pode verificar a falta de quase todas as condições normais para preencher o espaço de manobras para os infantis, ela sente-se feliz e serve-lhe de sinal de que o Deus que busca está presente, até mesmo para proteger os seus filhos e outras crianças.

Por isso, apela aos pais que ainda desconfiam do desconforto que o local dá para trazerem os seus rebentos, porque o resto o altíssimo se encarrega de acondicionar.

Para Eugénia, as crianças representam, igualmente, o sinal visível da presença de Deus. Por isso, ela assegurou que nunca vacila em levar os pequenos de sua casa para o Morro da Bela Vista, local que disse frequentar já algum tempo.

Revelou que, há coisa de cinco anos, os pastores, profetas, anciãos e outros líderes religiosos que recebem os peregrinos, nesse monte, ainda desaconselhavam as mães a trazerem os filhos, por uma questão de segurança.

“Mas a nossa insistência obrigou- os a cederem e agora é como se da presença de um adulto se tratasse”, disse Eugénia, que cogita para breve o surgimento de algumas cerimônias direccionadas a esta faixa etária dos pueris.

Sobre as actividades que começam nas horas extremas de passagem de Sexta-feira para Sábado, Eugénia declarou que, no caso de as crianças estarem a dormir, por essa altura, os pais são recomendados a acordarem-nas, de modo a participarem nas cerimônias de bênção e graça.

Maria de Fátima, a senhora que se encontrava com o filho recém-nascido ao colo, disse não temer das condições climatéricas do local, quando questionada se o local não representava um perigo para a criança que aparentava ter menos de cinco meses.

“Quando chegamos aqui no monte, entregamos tudo às mãos do Senhor e Ele protege-nos de todo o mal”, desabafou.

A jovem explicou que não trouxe outros dois filhos, por se encontrarem doentes, tendo acrescentado que também veio rezar para que eles encontrem saúde.

“É só para ver que, quando se pensa que as crianças vão adoecer aqui, acontece mesmo em casa, mas tenho fé que, a partir do momento que eu venho rezar a Deus aqui no monte, eles já vão ficar curados”, disse confiante.

Prevenção contra a Covid quase inexistente

Uma das coisas que se nota logo ao chegar-se ao local onde a concentração massiva de homens e tendas se regista é o facto de os peregrinos não fazerem uso da máscara facial, uma postura que até se pôde verificar aos pastores que deram a voz a O PAÍS.

As medidas de prevenção contra a Covid-19 agravam-se quando se verifica o local do acampamento desprovido de recipientes indicativos para lavagem ou higienização colectiva das mãos.

Questionados se alguns peregrinos possuíam alguns produtos básicos de prevenção à pandemia, como álcool em gel, sentenciaram que, normalmente, não precisam de os usar no monte.

Embora o prolongamento da colina contenha alguns declives irregulares, de espaço a espaço, preenchidos por alguns arbustos, onde os peregrinos preferem fazer as necessidades biológicas, não faltam os que urinam muito próximo do acampamento, principalmente quando o corpo que cobra tais necessidades for das crianças, normalmente acompanhadas por mulheres que, devido a algum medo, não se afastam muito do sitio povoado.

Infantis, entre a inocência e a recriação

Às crianças animam a presença ao ar livre, a convivência directa com os mais velhos e o desapego à normalidade de casa, da rua ou do bairro.

Elisete, de 12 anos de idade, relatou que antes vinha por obrigação da mãe, mas, actualmente, é ela que recorda a progenitora de que, na Sexta-feira, não podem falhar a romaria.

Demonstrando que já está a assimilar os ritos e outros procedimentos que ocorrem durante a vigília, a adolescente narrou que o monte é um lugar de sossego e recolhimento, para entrar em contacto com Deus, através de cânticos, danças e clamores que reflectem as suas e as necessidades que movem os seus familiares a subirem ao popular Morro dos Veados, que ela e os seus já consideram como sagrado.

Joia, de oito anos, está a marcar os primeiros passos no monte. Acha divertido sair de casa para acampar num lugar com muita gente.

É ela que antecipa a sequência dos passos programados no monte à sua irmã de cinco anitos, Olívia, a quem agrada ir aí, por haver muita dança e cantoria.

Por seu turno, Betinho, de 11 anos, contou que já tem estado aí com a sua mãe e que só lhe atrapalham os dias em que chove.

“Mas os mais velhos nos metem nas tendas e eles apanham chuva junto com os pastores que não páram de rezar”, descreveu o pequeno Betinho, realçando que gosta muito desse lugar e das actividades que se processam aí.

Aos quatro anos de idade, Deusinha não perdeu a caravana. O facto de a mãe levar sempre o bebé, que ela sabe que é mais novo, serve de argumento para não se deixar ficar em casa, de acordo com as encarregadas Elias Chimuchili e Eugénia.

Vozes e luz anunciam o acampamento

Diferentemente do acampamento em secções que cada grupo de peregrinos fazia junto do profeta, pastor, diácono ou líder religioso com quem cultuavam, agora os responsáveis pelas supostas cerimônias milagrosas decidiram que os peregrinos acampassem num único espaço aberto.

Para os estreantes, pode parecer estranho o silêncio dos primeiros sítios de culto. Pois o lugar das noitadas foi definido para o lugar mais alto da colina, que dista a mais de 900 metros do habitual.

O acampamento vislumbra-se para quem percorre mais de metade da referida distância, porquanto, nessa altura, aparecem as luzes as alternativas que os peregrinos já acampados criam, além de se ouvirem algumas vozes ou cânticos.

Na última Sexta-feira do mês de Fevereiro, no Morro da Bela Vista, havia mais de mil peregrinos já acampados e outros fiéis que, segundo informaram os intervenientes deste jornal, iam chegando.

Às vezes, cria-se um cenário cuja distância de tenda a tenda se torna muito reduzida, soube O PAÍS dos mesmos.

Os peregrinos vêm de todas as partes de Luanda, com destaque para os bairros da Samba, Morro Bento, Futungo, Benfica, Mundial e Ramiro, além dos do Golfe, Palanca, Mabor, Calemba e Zango, bem como da Zona Verde, Projecto, Sapu e Viana.

Por aquilo que se pode apurar dos próprios pastores, diáconos e evangelistas e outros que aí actuam, a maior parte da população que acorre ao Morro da Bela Vista professam na Igreja Pentecostal.

Mas quase todos líderes religiosos abordados asseguraram que, no local, frequentam cristãos de todas as denominações religiosas, destacando-se os católicos e Testemunhas de Jeová que o fazem com algum receio e alguma restrição ou omissão de identidade.