É de hoje…Bastidores

É de hoje…Bastidores

O primeiro dos dois únicos direitos de resposta que recebi enquanto jornalista esteve ligado às discussões que decorriam na então Comissão Constitucional que tinha sido criada para a aprovação da Constituição da República de Angola, mas veio a redundar num autêntico fiasco.

Hoje, num momento em que surge mais uma discussão sobre a Constituição, desta feita para a revisão pontual do documento, como sugeriu o Presidente da República, João Lourenço, pergunto-me se as lições daquela época não terão sido levadas em conta para possíveis acertos no futuro.

Embora muita gente já não se recorde- e outras, se calhar, preferem não o fazer para evitar más recordações – chegou-se a uma fase em que os angolanos tiveram sobre a mesa a possibilidade de ter uma nova bandeira, a manutenção da melodia do hino, mas uma nova letra seria feita e submetido ao crivo dos angolanos.

Além destas conquistas, os partidos políticos, entre os quais o próprio MPLA, haviam chegado à conclusão de que os governadores passariam a ser eleito. O que a acontecer seria uma conquista política de vulto ainda naquela fase imberbe da nossa jovem democracia.

Quando se exibiu a bendita bandeira vencedora do concurso lançado para o efeito, o choque da sociedade assemelhava-se a uma pessoa que tivesse encontrado numa escuridão algo tão aberrante. Do vermelho e preto a que nos habituamos, a opção recaíra para um assombrosso laranja com um desenho semelhante a uma concha ao meio.

Entretanto, quando se pensava que viesse a acontecer, por desacordos na Comissão Constitucional, a oposição em bloco abandonou os trabalhos, deixando o MPLA sozinho, deitando por terra as conquistas conseguidas e abriu o caminho para um novo processo.

Desde então, passados 20 anos, questiono-me sobre a capacidade negocial dos nossos partidos políticos e a incapacidade de buscar consensos.

Em política, mesmo que a publicidade das acções continue a ser o cartão postal mais vendido para se atingir os eleitores, os bastidores ainda acabam por ser um palco a não ser menosprezado. Por mais que se regateie, as possíveis alterações à constituição serão feitas a partir da Assembleia Nacional, por sinal o palco aprovado pelos próprios políticos para o efeito, o que, desde já, deverá merecer uma maior concertação entre o partido no poder e os partidos da oposição, com destaque para a UNITA.

Como tudo na vida, nem sempre se pode querer ganhar tudo. Às vezes são necessárias concepções, colocando à frente os interesses supremos daqueles que dizemos defender.