“As mulheres não têm de conquistar mais nada, elas só precisam de mais oportunidade”

“As mulheres não têm de conquistar mais nada, elas só precisam de mais oportunidade”

Oportunidades, respeito e maior acesso às mulheres nos órgãos de decisão é o que Josefa Lamberga, presidente do Fórum de Mulheres Jornalistas para Igualdade do Género (FMJIG), defende em entrevista a OPAÍS, no âmbito das acções comemorativas ao Dia Internacional da Mulher que hoje se assinala. Nesta entrevista, a líder associativa fala dos desafios da mulher, defende a adopção de políticas inclusivas com enfoque a uma análise à actual situação da mulher angolana daqueles que têm sido os seus maiores desafios

Há muito tempo que carrega consigo a preocupação dos assuntos ligados às mulheres. Considera um desfaio?

Sim. E tudo começou quando eu trabalhava no Jornal de Angola. Essa paixão pelos assuntos ligados à mulher nasceu quando, num dia o professor disse-me que faltava alguma página dedicada à mulher no Jornal de Angola, e como eu era a única mulher na redacção, abracei a ideia e posteriormente criamos o projecto “Mulher em Foco”. O meu ‘casamento’ com a história das mulheres começa aí.

Este princípio é que a catapultou para a criação do Fórum de Mulheres Jornalistas para Igualdade do Género?

O Fórum de Mulheres Jornalistas para a Igualdade de Género (FMJIG) nasce quando fui convidada para participar numa conferência sobre a violência doméstica, organizada pelas Nações Unidas. Havia a necessidade de fazermos uma nota de protesto contra a prisão e a violação de jornalistas no Congo.

Numa altura muito sensível…

Sim. É que Havia, na altura, muita perseguição contra jornalistas e muito abuso sexual contra a mulher. Apoiamos a iniciativa e produzimos o documento. Na produção deste documento, nós decidimos fazer a nossa onda de solidariedade com as mulheres. Assim começa a nascer o embrião do Fórum em 2008.

Considera um começo sem retorno?

De lá para cá já não paramos. Durante esse tempo, conseguimos levar a questão das mulheres para as nossas redacções, abordar os temas sobre a mulher, vamos dando formação em termos de abordagem feminina, de jornalismo, ética, trabalhamos também com outras franjas de mulheres como as zungueiras. Produzimos muitos estudos com o patrocínio das Nações Unidas.

Dentro do Fórum nós temos muitos braços, muitas parcerias, já cruzamos com muitas organizações e somos muito convidadas. Muitas mulheres nos procuram quando estão com problemas.

A experiência como repórter de guerra a teria incentivado para este desafio?*

Sim, de alguma forma. Portanto, foi na Lusa onde comecei a fazer cobertura da guerra. Foi um período interessante onde tive o privilégio e o prazer de cruzar com muita gente. Tive o privilégio de entrevistar Jonas Savimbi e o então Presidente da República, José Eduardo dos Santos. Aprendi muito. Tive o privilégio de conhecer Angola no verdadeiro sentido da palavra, por causa da guerra. Na altura eu não vivia sem fazer política, até que chegou o dia em que alguém me disse que eu estava desmobilizada e que não iria mais cobrir a guerra, que deveria parar de fazer política para abraçar outros desafios.

Que avaliação faz da situação actual da mulher angolana?

A mulher é de facto um ser muito especial. O ser mulher é o ser que mais sofre, porque ela chama para si toda a responsabilidade.

Como assim?

É que ela partilha a responsabilidade com o companheiro, mas verdade seja dita, o homem só é provedor, a mulher é quem executa o resto. Essa providência nem sempre funciona, porque há homens a ganharem vinte e cinco mil, o que não serve para nada. Então, neste aspecto, a mulher tem de se desdobrar. Essa é a realidade da mulher. Nesse sofrimento, por mais que a vejam cansada, com o rosto desfeito, ela não pára.

É uma jornada pela resiliência?

Eu penso que as mulheres têm a responsabilidade da vida e pela vida. Mais do que ninguém, nós temos a obrigação de querer deixar um mundo melhor do que encontramos. Sempre que alguma coisa estiver a ser mal feita, nós temos de gritar.

Até que ponto as políticas governamentais para as mulheres têm funcionado?

Nós olhamos com os olhos de não ver, porque olha para a questão da assistência social, fez-se um estudo em Luanda para o levamento dos bairros mais pobres, isso no âmbito do funcionamento do Kwenda. Portanto, parece que já há uma municipalização da Acção Social e os municípios já têm assistência. Mas eu me pergunto, o que é que fazem os municípios? Onde está a Acção Social nos municípios que não sabe que há famílias a passarem mal?

Neste quesito, considera houver um efectivo abandono das famílias mais vulneráveis?

Não tanto assim, mas considero que falta a figura do assistente social. Por que é que os assistentes sociais não fazem esse trabalho? Temos muitos assistentes sociais formados no país, mas não têm emprego. Não têm emprego porque dizem que não sabem onde os enquadrar. Um absurdo!

A meio de tudo isso, como olha para a actuação do Ministério da Acção Social, Família e Promoção da Mulher?

Nós temos um ministério que até fala de assistência social, mas que não tem assistentes sociais e fala em municipalização da acção social. Conforme está esse ministério devia, “sair para ir ver as famílias. Vão aos bairros dialogar com as famílias, identificar as famílias. Portanto, o que é que era o Centro Social de São Paulo? Aquele centro não era só para dar farras. As pessoas sabem do que estou a falar. Na altura do banquete, o MAPTSS pegou naquilo, forjaram umas obras e transformaram em centro de formação social, e como é que está hoje? Onde é que estão as creches públicas?

Considera ser necessário a intervenção de outros organismos em certos aspectos?

Há coisas que o Estado pode deixar para os privados, mas outras não. É preciso haver um casamento entre privado e Estado. O Estado tem a obrigação da assistência, e, dentro da sua assistência, o Estado casa com as grandes empresas que estão nos municípios e bairros, dentro da sua responsabilidade social. Mas aqui ninguém pede responsabilidade social a ninguém. Se a Assistência Social casar com a Responsabilidade Social das empresas o ministério não vai gastar muito dinheiro. Fariam um trabalho perfeito.

O que apresenta como alternativa?

O Ministério da Acção Social Família e Promoção da Mulher até é um super ministério e tem muito trabalho. Eu sei que a alocação orçamental é muito pouca, mas tem de se olhar para esse departamento ministerial como de facto, o ministério que tem a competência de civilizar, educar e ajudar as comunidades a se fortalecerem, a se formarem e a viverem em sociedade. É preciso que a Acção Social e a Responsabilidade Social se casem, fora disso estamos mal. Tudo isso passa por dar emprego às mulheres porque elas são boas em acção social, são boas em educar a sociedade.

Que passos considera que o país tenha dado em matéria de empoderamento feminino?

É preciso rever essa história do empoderamento. A nível parlamentar e do Executivo, os números até podem estar mais ou menos, mas é preciso olharmos para as empresas, onde o número de mulheres a ocupar cargos de direcção ainda é muito baixo.

O que estará na base desta situação?

Não é verdade que as mulheres sejam incompetentes, como tentou dizer um dos ministros, na tomada de posse da governadora de Luanda e do Huambo, quando lhes disse o seguinte: bom, é preciso que vocês trabalhem e trabalhem bem, têm de mostrar que podem, porque é a depender do vosso trabalho que outras mulheres serão nomeadas”. Isso me doeu. Não se diz uma coisa destas. As mulheres não precisam de conquistar mais nada, elas só precisam que lhes seja dada a oportunidade. Elas são a força e a sabedoria.

Como olha para a questão dos direitos da mulher?

Relativamente a esta questão, houve um recuo em relação as licenças de parto. Há empresas que regrediram muito, que não deixam as mulheres gozarem os noventa dias, não lhes pagam os subsídios, numa altura em que elas têm mais gastos. As mulheres hoje são penalizadas por terem os bebés. Não entendem que, se a mulher parar de dar à luz, o mundo pára, não terá continuidade.

E em relação aos casos de violência contra a mulher?

Espero que com a entrada em vigor do novo Código Penal, as coisas melhorem um pouco, porque os índices de violência crescem. Estatísticas mundiais indicam que, a cada dez minutos, uma mulher é estuprada, outra é violentada, outra é agredida e outra é morta. Se fizermos os cálculos em vinte e quatro horas teremos números assustadores e que as autoridades têm de tomar a peito. Mais uma vez chamar aqui a importância da figura do assistente social, porque ele visita as famílias e nota como elas estão estruturadas e como vivem.

Por outro lado, tem a nossa Polícia que precisa de ser preparada para o afrontamento, enquanto lida com a zungueira no sentido de não disparar sempre que a zungueira o confrontar por causa do seu negócio.