Cremilda de Lima: “O que eu gostaria mesmo é ver as crianças a manusear livros de literatura nas escolas”

Cremilda de Lima: “O que eu gostaria mesmo é ver as crianças a manusear livros de literatura nas escolas”

Cremilda de Lima completou 57 anos de carreira literária. Como se sente e que avaliação faz deste longo percurso?

Realmente completei 57 anos de carreira literária em que a literatura esteve sempre presente , pois como professora do Ensino de Base I Ciclo não podia ser de outra forma.

O processo de ensino-aprendizagem implica necessariamente a motivação. Despertar o interesse das crianças é fundamental. O conto, a encenação teatral, a declamação de uma poesia, a leitura de uma história modifica todo o ambiente e de repente temos o auditório desperto e a querer saber mais…

Os 57 anos de carreira reflectem-se também às suas vivências, experiências, alegrias, obstáculos e apesar de tudo muita aprendizagem e testemunhos no domínio das Letras. Conta-nos…

Ora, com uma tão longa carreira como docente, as crianças comigo e eu com elas a sentir-me cada vez mais motivada. Como ser professora, sem contar histórias, sem escrever histórias e sem levar as crianças a escrever os seus próprios contos? Por isso ouvimos muitos escritores a referirem o seu professor do I Ciclo como o grande motivador quando ao corrigir as redacções os elogiam. Tudo isto para referir que o meu perfil como professora tinha bem entranhada a literatura infanto-juvenil mas sem possibilidades de edição.Com a independência do nosso país as possibilidades de edição tornaram-se uma realidade. Com a Reforma Educativa no nosso país, em 1977, comecei a editar as minhas primeiras histórias infantis.

Por conseguinte, são 57 anos de carreira (comecei a trabalhar oficialmente em 1964) de uma ligação permanente com as crianças.

Será homenageada numa actividade que marcará amanhã, 02 de Abril, o Dia Internacional do Livro Infantil. Que relevância dá a esta iniciativa da Editora das Letras?

A Editora das Letras ao homenagear-me neste dia tão marcante, o Dia Internacional do Livro Infanto-Juvenil, demonstra o grande apreço e relevância que dá aos escritores e às suas obras.

O que mais lhe marcou neste percurso e o que gostaria de fazer?

O que mais me marcou neste percurso foi ter tido a oportunidade de poder editar mais de meia centena de contos infanto-juvenis, ter participado nos livros “Taras de Luanda e “Kaluanda”, deixar em livro um testemunho valioso sobre a História da Literatura Infantil Angolana; participar na Reforma Educativa, editar e reeditar livros infantis e infanto-juvenis, lançar a público o meu primeiro livro de poesia, participar com as minhas histórias infantis no primeiro Áudio-Livro, Sete Contos Infantis de minha autoria editados pela Nido/Produções e adaptação da Executive. A adaptação para teatro de várias histórias foi uma realidade muito marcante.

A participação em feiras nacionais e internacionais do livro são também alguns dos momentos marcantes da minha carreira. Nos momentos de silêncio, que só eu escuto, posso rever e trazer à memória tantos e tantos alunos e com o espelho da alma conseguir vê-los e sentir que com todas as recordações que me trazem, a motivação permanece. Com a minha determinação e perseverança procurei que o tempo não passasse em vão. O que eu gostaria mesmo e está difícil de conseguir é ver as nossas crianças a manusear os livros de literatura nas escolas. Cada criança com o seu livro sentir a textura, o conteúdo, admirar as ilustrações, conhecer o autor/a… enfim sentir que depois em casa vai partilhá-lo com a família e todos juntos vão ter bons momentos de convívio

Como está em termos de produção literária e qual será a sua próxima criação?

Em termos de produção literária, penso que estou no bom caminho, pois continuo a participar em vários projectos, os mais recentes, nomeadamente: Editora das Letras – Cinco reedições, uma delas “O Aniversário de Vovô Imbo” em realidade aumentada. “Percursos Imaginários Abrem Horizontes” Angola 45 Anos em fase de Edição. “Alma de Kaluanda” o meu primeiro livro de poesia editado pela Acácias e “A Magia do Natal”.Pela Editora Lexdata “Mia e o Pavão” um livro para os mais pequenos. Leya Texto Editores, “Lengalengas Trava – Línguas Rimas Poesia”; a participação na Colectânea (Poemas – Crónicas – Contos) “Escritos de Quarentena” Edições Handyman 2020, participação no Projecto Ler & Contar Produção Noitibó Confraria 2020; O livro “Percursos Imaginários Abrem Horizontes” Angola 45 anos, está já em fase de edição com a chancela da Editora das Letras. “Uma Verdadeira Rainha”, “A estrela de Todas as Cores” e “A Feira de Natal”, estão prontos aguardando apenas por oportunidades de edição.

O livro ainda se pode tornar um amigo inseparável das nossas crianças?

Se nós adultos orientarmos as crianças a fazer do livro um amigo inseparável, podemos ter a certeza que assim será. Se nós não formos um exemplo a seguir, de que estamos à espera?… Dedicar uns minutos a ler para as crianças, ouvi-las ler para nós é fantástico. Os Jangos de Leitura vão ser de uma mais-valia para o enriquecimento da cultura das nossas crianças.

Que comentários faz sobre o recém-lançado Plano Nacional de Leitura e até que ponto o pode influenciar a sociedade, especialmente os mais pequenos?

Sobre o recém-lançado Plano Nacional de Leitura não tenho comentários a tecer, uma vez que faço parte do Grupo de Trabalho e aguardo pelo desfecho do referido trabalho.

Como tem articulado as suas obras nesta fase e como foram para si os longos tempos de confinamento?

Os longos tempos de confinamento nesta fase de pandemia permitiram outro tipo de abordagens através da Internet. Realmente, para quem estava habituada ao grande público com actividades de lançamento de livros tão diversificadas, não foi e nem está a ser nada fácil a adaptação. Porém, novas aprendizagens, novos painéis para salvaguarda do bem maior que é a vida.

Além da crise económica mundial e a saúde, a pandemia da Covid-19 também inspirou alguns artistas. Tem alguma coisa criada durante a pandemia?

A pandemia da Covid-19 também criou no meu âmago a vontade de criar… Máscaras e rostos Uma profusão de máscaras! Um colorido camuflado… Em cada rosto uma dor Em cada dor uma máscara Em cada tristeza a lágrima Que já não escorre pelo rosto Lágrima abafada pela máscara… Máscaras multicolores!..

Enfeitam ou distorcem rostos… Máscaras…histórias de vida Silenciadas no colorido tecidas

Máscaras protecção!…

Do vírus invisível e mortal Desfilam nas ruas as máscaras Estas muito mais relevantes Indumentárias famosas… Não cobrem o valor de uma máscara Seja num grande condomínio Seja num pobre casebre!… Benfazeja máscara! Nem batendo à porta entra o vírus Vírus que na luta para entrar Encontra uma vontade férrea de vencer.

Como vai o intercâmbio entre escritores e leitores na diáspora e na CPLP?

Uma participação exitosa no IX Encontro de Escritores de Língua Portuguesa (IX EELP) uma organização da cidade da Praia/Cabo Verde e da UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa), participação na Feira do Livro de Lisboa com lançamentos de Livros pela LEYA Texto Editores e pela Editora das Letras. Participação em Encontros nas Bibliotecas das Escolas do I Ciclo do Agrupamento Aquilino Ribeiro num Projecto “Mundos Lusófonos – Leituras e Encontros” em Lisboa. Participação na XXIII Edição do Salão Internacional de Edição e do Livro de Casablanca com participação também da mesa redonda sob o tema L”Integration e les changements culturels entre L”Afrique Central” no quadro das actividades da 23ª Edição do Salão Internacional do Edição e do Livro.

Qual será a próxima obra e onde será apresentada?

A próxima obra, com o título “Percursos imaginários abrem horizontes” Angola 45 Anos, que sai pela Editora das Letras, a sua apresentação está para breve.

Percurso Maria Cremilda Martins Fernandes Alves de Lima, nascida a 25 de Março de 1940, em Luanda, após a conclusão dos seus estudos, frequentou diversos cursos de formação de professores entre 1962 e 1963 na província do Bié, e de Luanda entre 1963 e 1964. Posteriormente, começou a trabalhar como professora primária em Malanje, e em Luanda em 1965.

Juntou-se ao comité do Ministério da Educação em 1977, onde foi membro até 1991. Em 1987, concluiu o curso de formação científico-pedagógica na Escola Superior de Educação de Setúbal, e o curso de língua e cultura portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Entre 1992 e 1993 concluiu o curso superior de Ciências da Educação, opção e Pedagogia no Instituto Superior de Ciências da Educação de Luanda, e em 2003 licenciou-se na Escola Superior de Educação de Leiria.

Em 1984 juntou-se à União dos Escritores Angolanos. Cremilda publicou vários livros infantis e é considerada uma das mais conhecidas autoras de literatura infanto-juvenil de Angola.

Ela queixou-se da falta de divulgação de livros infantis e lamentou que a maioria das crianças de Angola “nunca tenham lido um livro”. Cremilda defendeu a criação de um “Plano Nacional de Literatura”. Argumentou que os Ministérios da Cultura, Turismo e Ambiente e da Educação deveriam trabalhar juntos para promover o gosto pela leitura entre os jovens de Angola.