Uma memória pessoal do 4 de Abril

Uma memória pessoal do 4 de Abril

Há 19 anos, no dia 4 de Abril de 2002, uma Quinta-Feira, almocei num restaurante da linha do Estoril, com o General João de Matos. Nesse dia, em Luanda, assinavam-se os Acordos de Paz entre o Governo do MPLA e a UNITA. Tinha sido um processo rápido, depois da morte em combate de Jonas Savimbi, no dia 22 de Fevereiro desse ano de 2002; a 15 de Março tinham-se iniciado negociações entre as chefias militares das FAA e da UNITA, na cidade de Luena no Moxico, que duraram até 30 de Março, dia em que o general Nunda, chefe de Estado-Maior Adjunto das FAA e o chefe de Estado-Maior da UNITA, general Abreu “Kamorteiro”, rubricaram os termos do cessar-fogo, depois do alargamento das negociações aos vários comandos provinciais da UNITA.

Finalmente, a 4 de Abril, numa cerimónia solene em Luanda, assinavam-se os Acordos de Paz e Reconciliação Nacional, entre os comandantes dos dois Exércitos: pelas FAA o general Armando da Cruz Neto; pela UNITA, o general Kamorteiro. O general Armando da Cruz Neto fora o sucessor de João de Matos, que deixara a chefia das FAA em Janeiro de 2001. João de Matos tinha sido o grande arquitecto, do lado militar do Governo, da situação e da relação de forças que levara à solução vitoriosa da guerra civil.

Eu tinha-o conhecido em Lisboa, em Janeiro de 1996, numa visita informal em que, pela primeira vez, se dera atenção, a nível do poder político do Estado português, a este general de 40 anos, chefe de Estado-Maior General das FAA, comandante de um dos  maiores e mais operacionais exércitos de África, lugar em que sucedera ao general França Ndalu. João de Matos convidou-me a ir a Angola, fazer uma conferência em Luanda, para os oficiais-generais das FAA, o que aconteceu no dia 15 de Março desse ano de 1996. Iniciámos aí uma relação, sempre dominada a preocupação de uma solução para a guerra civil, mas que trouxe consigo uma boa amizade. João de Matos era uma personagem fora de baralho, tinha um historial de combatente e de chefe de combatentes, o que se via, desde o primeiro instante; até por um pormenor, que sempre observei nos verdadeiros operacionais, – estão muito mais à vontade em uniforme, no camuflado, que em roupas civis.

Fomos tendo, nesses anos, conversas sobre a situação – que era na altura uma daquelas situações de nem paz nem guerra, que se repetiram nesta fase última ou “terceira” da guerra civil de Angola; quando, tendo cessado as intervenções externas, a partir do fim da Guerra-Fria, a guerra se tornara um processo quase exclusivamente interno. Apenas no sentido de que a intervenção das grandes potências soviética e americana desaparecera, embora persistissem os conflitos regionais que continuavam – da RDC à África do Sul em transição – a influenciar e ser influenciados pela guerra de Angola. Naquele 4 de Abril de 2002, João de Matos não estava eufórico. Nos finais de Janeiro de 2001, o Presidente José Eduardo dos Santos, a pretexto de um conflito levantado pelo ministro da Defesa, Kundi Paihama, tinha-lhe apontado o caminho da demissão, aproveitando ele terminar o segundo mandato consecutivo no cargo. Segundo o General Luís Faceira, fora-lhe então oferecido o lugar de Embaixador na Coreia do Norte, que, claro, recusara.

Fora para o Reino Unido, para Londres, fazer um curso no IISS – International Institute for Strategic Studies. Em Angola podia, mesmo contra vontade, ser uma presença incómoda, com todo o prestígio, merecido, de homem que dera a volta à guerra e que queria a paz no equilíbrio e no respeito e na reconciliação nacional. Enquanto almoçávamos e falávamos do passado e do presente, não deixei de pensar numa certa ironia da História: o homem-chave na origem do que estava a acontecer naquele dia, não estava presente em Luanda, estava ali, sereno, tranquilo, sem ressentimentos, mas também sem excitação nem euforia, a olhar lucidamente para o presente e o futuro. João de Matos era um chefe natural, por intuição e instinto, daqueles que agarram o pessoal e o levam para onde querem. Em Portugal conheci oficiais assim – como Alpoim Calvão nos Fuzileiros, Jaime Neves nos Comandos e Heitor Almendra nos Páraquedistas (este felizmente ainda por cá). Mas para além dessa capacidade de conduzir os homens no terreno, tinha sentido estratégico, do comando e controlo e da grande arte e dos ardis da guerra.

E por isso saiu vencedor daquilo que foi também um duelo pessoal, de estratégia e astúcia, com um adversário de grande estofo – Jonas Savimbi. João de Matos fazia a guerra sem ódio, e tinha a noção de que as guerras civis são sempre um passo doloroso, mas quase obrigatório, para a construção de um Estado e de uma Nação. Ele raciocinava com visão e ousadia, olhando a História do Mundo, do velho continente europeu e das Américas. Eram guerras que deixavam sempre cicatrizes. Por isso, quando falávamos em “Memórias” e em “História” fazia aquele seu sorriso evasivo, fino e sábio, como quem diz, “é capaz de ser cedo para isso…” Deus e o Destino não lhe deram tempo para repensar o tema. Mas, percebendo a sua reserva, tenho pena, que não tenha deixado para a História, para os seus companheiros e amigos, – e para os inimigos que quase todos ficariam seus amigos – a sua visão e a sua versão dessa guerra de quase trinta anos que acabava naquele dia. Ternos-ia ajudado a todos.

POR: Jaime Nogueira Pinto