É de hoje… Espinhos políticos

É de hoje… Espinhos políticos

Tem-se dito que os fins justificam os meios, havendo por isso quem não olhe a eles para atingir os seus objectivos. Em política, infelizmente, são vários os casos de antigos inimigos que se juntam para enfrentarem o adversário comum, decretando tréguas que a seu tempo podem ser levantadas para que, posteriormente, resolvam os seus problemas.

Três anos depois de ter chegado ao poder, João Lourenço terá, também, como humano, criado alguns anticorpos, sobretudo a nível daqueles que viram as suas vidas de bonanças esfumadas, alimentadas por um esquema de corrupção e tráfico de influência em que os maiores prejudicados eram os angolanos.

Por isso, entre gente que a esta hora viu ou ainda desaparecer dezenas ou centenas de milhões de dólares norte-americanos, patrimónios e outros bens, não espanta que surja alguém que se sinta tentado em mergulhar numa vingança mais pessoal do que propriamente política.

Daí para saltar do barco e dar a mão ao antigo inimigo político é um pequeno passo, cujas negociações poderão implicar, certamente, não só uma vingança como tal, mas também um acordo para a manutenção do status quo.

Depois da entrevista ao Camunda News, em que Adalberto Júnior diz ter sido contactado por alguns políticos para ajudar na luta contra João Lourenço, ou mesmo a eventual aliança com Isabel dos Santos, são várias as interpretações que podem ser feitas.

Não há dúvidas de que as alianças improváveis em política são o que mais acontece. Mas há algumas cujo desfecho podem não ser os melhores, por mais razões que se possam querer elencar no sentido de se convencer o eleitorado como sendo o melhor para o bem dos angolanos.

Só com muitas orações se conseguiria convencer os angolanos de que a tese de que existe no país um combate à corrupção selectivo não estivesse de alguma forma associado ao eventual romance entre o maior partido da oposição, a princesa ou até mesmo um grupo maior que integra aqueles que hoje carregam nas costas o carimbo de terem sido os piores salteadores deste país.

Uma união neste segmento, que certamente acabará por criar sérias fracturas entre os principais ideólogos da UNITA e não só, mesmo que se diga que os fins justifiquem os meios. Porque ela deverá estar assente em alguma base sólida, o que não passaria somente pelo sonho da remoção do MPLA e do seu Presidente, João Manuel Gonçalves Lourenço, mas também por passar uma borracha sobre aquilo que a própria comunidade internacional garante estar a ser bem feito.

Por mais que se ambicione o poder, há espinhos sobre os quais não se deve deitar a mão para colher rosas. Deitar por terra o combate que se começou hoje contra a corrupção, um mal descrito pelo próprio Presidente José Eduardo dos Santos como o segundo depois da guerra, poderá significar também alguma cumplicidade em tudo quanto os angolanos abominam e aconteceu por causa do tráfico de influência e empoderamento de que foram beneficiárias umas poucas famílias neste país.