Sector privado angolano ‘desperdiça’ facilidades de financiamento do Afreximbank

Sector privado angolano ‘desperdiça’ facilidades de financiamento do Afreximbank

Banco pan-africano criou uma divisão africana que deverá disponibilizar 20 mil milhões de dólares, nos próximos quatro anos, para apoiar o comércio intra-africano. Angola dispõe já, neste momento, de uma linha de crédito de mil milhões de dólares que, no entanto, não tem sido aproveitada pelo tecido empresarial nacional

A informação foi avançada, em exclusivo a OPAÍS, pelo vice-presidente do Comité Pan-africano de Comércio e Investimento Privado (PAFTRAC), uma organização recentemente apresentada em Angola e que promete ajudar os Estados-membros a definir políticas comerciais e de investimento em África, no sector privado.

De acordo com Agostinho Kapaia, as facilidades de financiamento lançadas, nos últimos tempos, pelo Banco Africano de Exportações e Importações (Afreximbank), visando o fomento da produção local e consequentemente das exportações entre os países africanos, têm estado a passar ao lado do sector empresarial privado angolano, a favor de países sobretudo do Norte de África como o Egipto, Marrocos ou ainda a Nigéria, que têm dado melhor proveito a estas linhas de crédito.

Em recentes declarações, em Luanda, aquando do lançamento oficial das operações do PAFTRAC, em Angola, ocorrido em Março último, o presidente do Afreximbank, Benedit Oramah, esclareceu que o objectivo final do Comité Pan-africano de Comércio e Investimento Privado é o de fortalecer os sectores privado e público em todo o continente africano.

Para tal, garantiu que o Afreximbank criou uma divisão africana dentro do banco, canal através do qual deverão ser disponibilizados 20 mil milhões de dólares, nos próximos quatro anos, para apoiar o comércio intra-africano. Benedit Oramah assegurou ainda, na ocasião, que aquela instituição financeira pan-africana tem em carteira projectos de apoio que deverão beneficiar 400 dos 600 bancos africanos para beneficiar da linha de crédito de 8 mil milhões de dólares disponível.

Angolanos convidados a candidatar-se

Entretanto, na entrevista concedida a OPAÍS, o vice-presidente do PAFTRAC, Agostinho Kapaia, reforçou que, do total dos valores anunciados, Angola terá já beneficiado de uma linha de crédito de mil milhões de dólares que se encontra disponível para os empresários.

“A linha de crédito está disponível. Os empresários estão todos convidados a candidatar-se. Agora, resta, da parte do sector privado nacional, contactar o banco (Afreximbank) e ver como os processos funcionam ao nível do banco. Depois disso, poderão concorrer para financiar eventualmente os vários projectos existentes”, elucidou o empresário.

O também presidente da CEEIA (Comunidade de Empresas Exportadoras e Internacionalizadas de Angola) reforça, no entanto, que o acesso a estas linhas de crédito passa essencialmente pela prévia preparação dos projectos a submeter ao banco para depois serem eventualmente discutidos.

“Importa realçar que o financiamento tem aqui a componente de estimular e aumentar a produção dos países africanos para haver exportação entre os países. Este é o grande objectivo de fundo do financiamento do Afreximbank, que é o de aumentar a capacidade de produção para haver trade entre os países africanos. Os empresários devem apresentar os seus projectos e depois o banco irá avaliar e eventualmente irá aprovar ou não”, reiterou.

Entretanto, o empresário lamenta o facto de actualmente haver poucos projectos financiados pelo Afreximbank, no sector privado angolano e acredita que tal situação só tem estado a ocorrer por haver alguma espécie de ‘timidez’, da parte dos empresários angolanos, em agarrar estas oportunidades, quadro que faz votos que se altere nos próximos tempos agora com a entrada em operação do Comité Pan-africano de Comércio e Investimento Privado.

“Até porque também Angola é accionista do banco (Afreximbank), paga as suas quotas”, refere, mas que, ainda assim, o sector privado angolano não tem sabido tirar proveito dessas facilidades, o que lamenta.

Na sua recente intervenção, em Luanda, também o presidente do Afreximbank referiu-se sobre este tema, em particular, realçando que, das várias limitações existentes, a questão da “má organização do sector privado” é a que “tem impedido uma participação muito mais eficaz”, bem como a da “falta de confiança entre o sector privado e os governos”.

Ainda assim, Benedit Oramah, que em 2019 foi nomeado como um dos africanos mais influentes pela revista “Jeune Afrique”, acredita que esta situação poderá ter o seu fim com a entrada em funcionamento do PAFTRAC, que se compromete em organizar o envolvimento do sector privado, o comércio e as políticas das autoridades nacionais dos países do continente.

Na ocasião, o ‘homem forte’ daquele banco pan-africano garantiu também que os desafios a que as economias se vêem mergulhadas, por conta da força que as moedas estrangeiras têm, impedem o comércio regional, o sistema de pagamentos, bem como a liquidação de pagamentos vão igualmente beneficiar-se de um financiamento da instituição que dirige, desde Setembro de 2015.

“O Governo de Angola, sob a liderança de sua excelência João Lourenço, pode ter a certeza que vamos poder conectar o continente indiano ao continente africano, e isso será exequível, até mesmo economicamente viável”, garantiu, convidando, por outro lado, o Governo e os empresários angolanos a participarem da feira a ser realizada, em breve, em Kigali no final deste ano, para qual “o pavilhão de Angola será muito maior que aquele que vimos em 2018”.

Garantiu ainda estarem em negociações com o Ministério da Indústria e Comércio, no sentido de permitir a participação de Angola no certame de Kigali, bem como no sentido de assegurar o apoio ao sector privado para tornar essa transformação possível, tendo, no entanto, reconhecido que a parceria do Governo de Angola com a PAFTRAC vai “de modo a assegurar que a voz do sector privado seja ouvida”.

A PAFTRAC

Criado em Outubro de 2018 pela União Africana, o PAFTRAC, segundo os seus promotores, pretende estimular um quadro para facilitar a união, a participação e envolvimento do sector privado em questões de comércio e investimento no continente, incluindo a formulação de políticas comerciais, de investimento e negociações comerciais, em apoio ao desenvolvimento sustentável das economias africanas em linha com a Agenda 2063 da União Africana.

POR: António Nogueira