Jogo-Maria

Jogo-Maria

Antigamente… Não. Já começo mal. Minha escassa idade ainda não me permite o luxo de fazer o uso da expressão “antigamente”. É-me legítimo, isso sim, o atrevimento de começar da seguinte forma: num tempo nem tão distante assim… Agora vai! Num tempo nem tão distante assim, os jogos de futebol, pelo menos cá por essas bandas, eram, não só uma maneira de diluir com mais rapidez o declinar das tardes, como também, um meio de socialização e confraternização.

Os jogos de futebol eram autênticos espectáculos de proezas e criatividades. Mas as coisas nem sempre acabavam pacificamente. Perante a uma iminente derrota, bem na recta final da partida, vendo-se incapacitada de dar a volta ao resultado, a equipa perdedora, no seu geral tecnicamente fraca, procurando fugir da vergonha e dar a impressão de grandeza, socorria-se de uma jogada atípica, que consistia em aniquilar fisicamente o adversário que, voluntária ou involuntariamente, estivesse com a bola ou relativamente perto dela. Esquecia-se da baliza: o foco já não é a bola, e sim o possuidor dela. E, para isso, valia tudo: cabeçadas, socos, pontapés e toda a sorte de artes marciais. Os peritos em dar nomes às coisas decidiram chamar a essa prática de “Jogo-Maria”. E acontecia tudo sob o olhar atento de um árbitro inoperante e impotente.

Bem, se nos trumunos actuais já não se registam tais ocorrências, é nos debates onde, lastimosamente, esse tipo de jogo se espraia. É que, nos dias que transcorrem, faz-se prática corriqueira transformar os debates em autênticos campos de martírios e ataques ét(n)icos e mor(t)ais.

Num amistoso de ideias sobre qualquer assunto, é comum, quando exaltados os ânimos, partir-se para ataques pessoais. Quem assim procede é, geralmente, aquele que apresentar, durante o debate, argumentos bem fraquinhos, infundados, desprovidos dos mais comezinhos rudimentos de razão. A esse falta-lhe ideias para sustentar as suas posições. Vendo-se na iminência de ser “esmagado”, nada mais lhe resta senão o recurso ao “Debate- Maria” (perdoem-me as Marias): e é que, abandonando a bola (o tema), parte para a pessoa do oponente, atacando-lhe a vida privada e íntima, questionando sua formação académica, sua trajectória política, etc., e censurar o seu perfil, com o intento de derrubá-lo, descredibilizá-lo e manchar-lhe as feições e o carácter. O infeliz, intelectualmente débil, está desesperado, caminha às apalpadelas; a agressão moral parece a única via para se afirmar e substituir a competência, intelectualidade e inteligência que tanto lhe falta.

Outros há, entretanto, que exageram na arte marcial da demolição: tanto assim é, que, esses outros, não lhes sendo suficiente os ataques morais que lançam, fazem uma completa varredura para ver se encontrem, no corpo do colega de painel, razões para suster suas mesquinhas alegações. Já ouvi um deputado a dizer que o seu oponente só pensava daquele jeito por causa do seu cabelo que estava muito crescido. É uma atitude típica de fracos. Não nos podemos esquecer que o “Debate-Maria”, para além de violento, chega a ser um atentado à dignidade, ao bom nome e à boa imagem da pessoa do qual é vítima. E o que é lamentável é que, muitas vezes, esses ataques efectivam-se diante da mudez dos “árbitros” da comunicação social, merecendo, inclua-se, a conivência e os aplausos de altas figuras dos mais variados tecidos da sociedade.

Enfim, de tudo o que se tem dito e lido até aqui, o fim é: “debatem-se ideias, e não pessoas”.

Por: Hm Elizeto