É preciso cultivar paz na família e vizinhança

É preciso cultivar paz na família e vizinhança

A paz tem de ser algo que abunde nos nossos corações, mais do que em qualquer outra esfera da nossa existência. Só este entendimento poderá propiciar que valorizemos tudo o que de belo existe ao nosso redor, como a nossa vizinhança, por exemplo. E isto cultiva-se. A paz nas nossas famílias não será plena se parte de nós não poder vencer os seus conflitos interiores, se não nos doarmos às causas nobres das nossas famílias, se não nos predispusermos a perdoar as ofensas bizarras dos nossos parentes, se amar não for um modo de vida, se entendermos que a cada conflito e adversidade devemos usar o ditado “antes só do que mal acompanhado.

E precisamos compreender isto com empatia, sem que percamos de vista que é falsa a paz que se baseia na satisfação egoísta e unilateral. Quem pensa que os seus interesses pessoais devem prevalecer sobre a maioria, só por isso, é já uma ameaça à paz familiar e, concomitantemente, social. E temos de pelejar oportunamente contra aquilo que ameaça ou aniquila a nossa paz. E temos de fazê-lo com empatia, já que, é ela que leva-nos a compreender que se os nossos fi -lhos são os promotores, executores ou cúmplices das lutas de grupo, dos assaltos, das violações e homicídios, tirá-los do seio da comunidade seria um exercício de pacificação das vítimas, se melhor terapia não resultar. E só por isso se compreende que alguns bairros ganham um “ar de paz” com a morte de alguns bandidos. Faremos então apologia à pena de morte?

Claro que não, pois, a mesma virtude (a empatia) nos faria compreender que nenhuma mãe quer ver morrer ou ser sepultado um filho, mesmo que seja marginal aos olhos da sociedade. Sem empatia, estabelecer a paz é uma utopia. Convenhamos, muitos cidadãos querem amnistia para os seus entes queridos acusados de violação, quer seja de menores ou de adultas, buscam soltura para os seus marginais, fazem titânicos esforços para ver em liberdade confessos criminosos. Mas quanto aos pecados de peculatos e “robalheiras” cometidas contra o erário, aplaudiriam a pena de morte. Que Angola terão se seguirmos esse caminho? Já é de hábito, também, que uns tantos famintos façam tanto alarido nos dias de fome mas, havendo oportunidades, típicas ou atípicas, recebem uns parcos montantes financeiros, uns bonés e umas bebedeiras e, sem coragem de chamar a isso “caso micha” ou, mais ousadamente, “promiscuidade”, calam-se. Toda a promiscuidade atenta contra a paz. E não é estritamente um problema do governo ou dos políticos.

Note-se que muitos dos que são acusados de dar “gorjetas” e “gasosas” para tirar seus entes queridos detidos nas esquadras não são entidades políticas nem pessoas politicamente expostas. Em abono da verdade, quantas vezes não ouvimos falar que o assassino, o violador, o gatuno, está a solta porque seus familiares – cidadãos comuns representados pelos representantes da sociedade civil – acreditaram que o crime não voltará a acontecer?! No entanto, a maior parte deles não estará disposto a ouvir falar em amnistia que eventualmente abranja os que surripiaram o erário, ainda que os citados garantam não voltar a defraudar os angolanos e a moral pública. É verdade que ainda muito temos de conhecer para falarmos de paz. Mas o exercício de cultivá-la não deve ser procrastinado. E tem de iniciar em nós, alargar-se na família e, daí, para os demais campos, porquanto, é utópico querer paz no país se ela não existir em nós. Será verdadeira a paz nas famílias onde os que aprovam a poligamia não aceitam a poliandria, não admitindo que a vontade de variar o companheiro sexual é humana e não dum género só? Onde há muitos que reprovam a poligamia, namoram às escondidas, porém, não admitem a traição, pode haver paz interior?

Polígamos, adúlteros, assaltantes, praticantes intensivos do peculato e todos os outros que não admitem abusos, não toleram faltas de respeito, não estarão dispostos a perdoar acusados criminosos que subiram na vida fazendo mal aos pobres. As igrejas procuram fazer a sua parte do esforço, sempre insuficiente, assim como o estado. Entretanto, o cultivo da paz para a nação inicia nos nossos lares, dado que, se pairar sobre o país uma nuvem de “rivanches”, ela não se vai esfumar com um simples apelo ao amor ao próximo ou ao perdão, se as famílias estiverem muitíssimo ocupadas com a gestão e controlo de coisas fúteis, que não lhes reste tempo para “orientar” metódica e harmoniosamente aos seus integrantes. Não haverá paz em país algum onde as famílias andarem tão preocupadas com os seus interesses, mesmo que tal resulte em perturbação para a comunidade circunvizinha, tal como não haverá sossego onde a efusiva vontade festiva de uma família se sobrepuser à inegável necessidade de repouso da vizinhança. Isto não precisa depender do Governo.

POR: Manuel Cabral