O Combate à insensibilidade

O Combate à insensibilidade

Num domingo do mês internacionalmente dedicado à mulher, um jornal diário da nossa praça publicou uma matéria, intitulada “Emoção e Lágrimas na Hora da Despedida”, que me deixou bastante pensativo. Nela, dá-se destaque à uma acção protagonizada por Ana Cristina Massanga, que é, há 30 anos, Auxiliar de Limpeza no Governo Provincial da Huíla. A senhora Ana Cristina Massanga, no dia em que o ex-governador Luís Nunes fez a entrega de pastas ao seu substituto, o novo governador Nuno Mahapi Dala, vendo o primeiro a abandonar a sala, dirigiu-se-lhe aos gritos e com os olhos banhados em lágrimas: “Não, Chefe. Não. Vais aonde? Porquê? Não nos abandones…”. Ao jornal, Ana Cristina Massanga contou que vive numa zona de risco chamada “Ilha”, adjacente ao extinto Bairro Camazingo.

A sua casa, construída à beira do rio, tem a parte traseira desabada. As rachaduras continuam a alastrar-se, querendo dizer que, mais dias, menos dias, cai toda. Ela tinha esperança e confiança de que se mudaria para a Centralidade da Quilemba, segundo lhe garantira o ex-governador Luís Nunes, que também lhe havia pedido para ter calma, pois já só faltava a água para que a centralidade recebesse moradores. A luz já era uma realidade. Os gritos e as lamúrias da senhora Ana Cristina Massanga tinham uma razão: com a saída do governador Luís Nunes não sabia se o problema da sua casa, que pluralizando “nosso” dava a entender que era o de muitos funcionários, ia ser resolvido. Ana Cristina Massanga disse que tem boas e más recordações dos antigos governadores com quem trabalhou ao longo de 30 anos.

Entretanto, singularizou as qualidades do ex-governador Luís Nunes, dizendo-o pessoa diferente. Simpático com todos. Dá-se bem com todos. Independentemente da sua posição social, ele saúda todos. Foi um pai, terminou ela. Ainda sobre as qualidades do governador cessante, falou também Teresa Canjala, de 55 anos de idade e também Auxiliar de Limpeza do Governo da Província da Huíla. Mãe de sete fi lhos e moradora do Bairro Nambambe, Teresa Canjala disse que Luís Nunes foi um bom líder. Era um pai e carinhoso para todos. Dava atenção a todos, principalmente para nós que ganhamos pouco. Sentíamos que tínhamos um pai à frente do Governo da Huíla.

Ao finalizar o seu depoimento, Teresa Canjala recordou que nem sempre precisamos de receber dinheiro, mas sim de ser tratadas com respeito, de ouvir palavras de consolo e de ser corrigidas em bom tom de voz quando estamos erradas. Pena é que poucas pessoas têm essa virtude. Na minha reflexão sobre a acção da senhora Ana Cristina Massanga, nasceram algumas questões: como é possível alguém ficar 30 anos a trabalhar na mesma categoria? Será que é porque ao longo deste tempo não aumentou o seu nível de escolaridade? E o nível académico é o único critério de avaliação para que as pessoas mudem de categoria na Função Pública? Em 30 anos, quantos governadores passaram por ela? Assim, irá à reforma com o salário de Auxiliar de Limpeza? Como se não bastassem estas indagações, que me giravam a cachimónia há dez dias, no último dia do mês, a partir dos estúdios da Rádio Luanda, surgiu uma mulher que, aflita, foi fazer um apelo a quem de direito para que a ajudasse a resolver o busílis que enfrentava na Administração Municipal de Viana.

Segundo a mulher, em 2016, a sua casa, na zona do quilómetro trinta, foi demolida pela administração e, como indeminização, deram-lhe um terreno. Porém, ela não consegue construir por falta de documentação do espaço. Para a legalização, estão a pedir-lhe, entre outros, croquis de localização, cujo preço vai de 35 a 40 Mil Kwanzas, valores de que não dispõe. No seu apelo lamurioso, ela disse não entender por que devia pagar mais pela documentação, sendo que a sua casa fora destruída pelo Governo. Queixou-se da insensibilidade do pessoal da área técnica da Administração Municipal de Viana, que não consegue apiedar-se dela que é uma pessoa deficiente. Dão-lhe bailes atrás de bailes, razão pela qual decidiu bater à porta da rádio em busca de ajuda. Inquirida sobre o motivo que levara a sua casa a ser demolida, respondeu não saber em concreto, porque existem duas versões: uma dita que a área é pertença da Zona Económica Especial e outra que pertence ao novo Aeroporto Internacional de Luanda. Ao findar o seu clamor, a mulher disse que vive numa casa arrendada desde 2016.

Voltando ao caso da senhora Ana Cristina Massanga, será que uma casa na Centralidade da Quilemba ia resolver os seus problemas? Julgo que não, pelo seguinte: por cá, o salário mínimo, que é atribuído ao pessoal de limpeza, é baixíssimo, uma bagatela. O que pressupõe dizer que ela continuaria a enfrentar muitas dificuldades para pagar a renda resolúvel e as taxas de água e de luz, sem esquecer os outros serviços. Estes dois casos são uma demonstração clara de que, em Angola, a classe governante não anda(va?) preocupada em governar segundo a máxima deixada por Agostinho Neto, “O MAIS IMPORTANTE É RESOLVER OS PROBLEMAS DO POVO” , deixando-o viver à sua sorte, sem qualquer dignidade, enquanto para os governantes há(via) tudo e mais alguma coisa. Por exemplo, não se compreende por que até aos tempos que correm, estando já o nosso país em Paz há 19 anos, é tão difícil para um cidadão comum comprar um terreno através das autoridades competentes.

Recentemente, foi lançado um projecto para vendas de terrenos em Luanda. Mas os preços milionários indicaram logo não ser um projecto elaborado a pensar no povo, que ganha salários tão míseros que nem lhe possibilitam ter comida na mesa por um mês. Para grande parte dos trabalhadores da Função Pública, a solução para a casa própria passa por projectos de venda de terreno, a preço módico, cujas construções devem ser dirigidas, o que permite que o Governo implante os serviços sociais básicos. Afinal, todos sabemos quão alta é a factura que pagamos devido à forma como cresceram anarquicamente muitos bairros em Luanda.

E, para implementação de tal programa, não se precisa de muitos recursos, basta apenas vontade política, ou seja, que os governantes tenham sensibilidade que lhes permita colocar-se no lugar dos seus governados. Assim, uma vez que nos aproximamos a passos largos ao próximo ano eleitoral e porque o coro popular de insatisfação cresce a cada dia que passa, sugiro que o Governo junte também o combate à insensibilidade da maioria dos seus membros aos vários combates que tem travado na presente governação, a fim de que estes se empenhem a resolver os problemas do povo e não os seus e, fruto disto, não tenhamos mais notícias que corroem o coração nos nossos media.

POR: Dias Neto