A crise da ordem internacional liberal

A crise da ordem internacional liberal

“Os Estados Unidos hoje enfrentam um real perigo geopolítico e nem a equipe de Biden, nem o Establishment da política externa reconhecem a gravidade da situação. O presidente eleito Joe Biden e os seus conselheiros gostam de falar não só de uma renovada liderança americana, mas também da restauração da ordem liberal internacional e da habilidade americana de, simultaneamente, agir como um poder revolucionário e manter a paz.

” É com estas palavras que Dimitri K. Simes, o Editor da National Interest e Presidente Executivo do Center For National Interest de Washington D. C. abre o seu depoimento no número que Th e National Interest consagra, ao próximo ciclo presidencial, com depoimentos de 33 especialistas norte-americanos em estratégia e relações internacionais. Entre eles há de tudo – conservadores, liberais, isolacionistas, internacionalistas.

Depois de Trump

Depois do quadriénio Trump, um presidente identitário que claramente não tinha grandes simpatias pela ordem liberal Internacional, pode esperar-se, com Biden, um regresso a essa ordem? Esse regresso parece problemático. Trump acabou vencido nas eleições de Novembro, mas talvez a crise da ordem liberal Internacional fosse mais profunda que as ideias ou políticas de um Presidente americano, que se assumia como nacionalista e colocava o interesse nacional americano acima de tudo (o que aliás os presidentes americanos, e outros presidentes que se prezam costumam fazer embora não andem a dizê-lo em vez em voz alta). Talvez a crise da ordem liberal internacional seja mesmo definitiva, na medida em que o internacionalismo – de ideias, de comércio, de comunicações – entrou em perda, não só na filosofia política e na prática governante de muitos Estados, mas também nas relações entre eles.

A pandemia, reforçou esta crise, com a questão do confinamento, quarentena e vacinação. Enquanto os Estados Unidos e o Reino Unido (já para não referir Israel) cuidaram de modo unilateral dos seus interesses lograram ou estão a lograr vacinar os seus cidadãos rapidamente, a União Europeia, com uma política conjunta e colectiva, em nome de um suposto interesse comunitário, tem-se atrasado penosamente, com riscos gravíssimos para as populações dos 27. Como escreveu John Ikenberry, a ordem global liberal, o internacionalismo liberal nas relações interestaduais, atravessa uma crise que a proclamada intenção da Administração Biden não pode resolver. Num livro publicado em 2020, – A Word Safe for Democracy – John Ikenberry, historiou as vicissitudes da ideia, da forma e da execução política dos princípios do internacionalismo liberal nos últimos 200 anos, ligando-os, correctamente, à ascensão e hegemonia dos poderes anglo-saxónicos, defrontando, sucessivamente, poderes para autoritários ou totalitários continentais europeus – da Alemanha hitleriana à Rússia Soviética. E derrotando-os sucessivamente, também, em 1945 e em 1991. Por isso Ikenberry, professor em Princeton e Daniel Deudney, da John Hopkins, cunharam o conceito de “ordem internacional liberal” em 1999.

Os três inimigos

Os ataques teóricos, ideológicos a este conceito vieram de várias origens: à direita, do nacionalismo identitário americano que influenciou o “América First” de Trump e está presente na maioria dos movimentos e partidos ascendentes da direita identitária europeia – do Rassemblement National francês à Liga italianA, do Vox espanhol ou ao Chega em Portugal. Estes partidos da direita popular ou populista, são cépticos quanto às soluções internacionalistas ou federalistas, que consideram uma forma de as grandes potências prosseguirem os seus interesses ao abrigo do globalismo e da retórica multinacional.

Outra crítica vem das grandes e médias potências com regimes claramente não liberais, como a República Popular da China, a Rússia, ou a Turquia. Não quer dizer que estes Estados sejam contra o internacionalismo económico: a China, por exemplo, está fortemente empenhada na internacionalização e na liberdade de comércio que lhe garantiu um lugar dominante como parceiro comercial e investidor em África, na América Latina e na Europa.

Finalmente outro grupo de inimigos ideológicos da “ordem liberal internacional” são os movimentos de esquerda radical que vêem nela uma forma de “imperialismo” e opressão dos povos periféricos pelo “centro”, capitalista e imperialista. As condições actuais – o impacto da Pandemia Covid-19 nos Estudos e nas suas relações – veio pôr mais barreiras ao entusiasmo liberalizante. Por um lado, perante a crise, foi claro o comportamento dos países em favorecer os seus cidadãos e a sua segurança. Estranho seria que fosse de outro modo.

E na questão crítica do combate à Pandemia e da vacinação, a União Europeia deu provas de confusão e ineficácia, perante a rapidez com que o Reino Unido e os Estados Unidos estão a proceder à vacinação dos seus cidadãos. O facto da ideologia nacionalista ser hoje dominante em poderes como a China, a Índia e a Rússia, vai, fatalmente, ter consequências na ordem mundial. E mesmo nos Estados Unidos, e não só entre os eleitores de Trump, a ideia de restrição, nas intervenções militares exteriores e a preocupação de recuperar uma certa capacidade industrial e autonomia energética, estão na ordem do dia.

POR: Jaime Nogueira Pinto