A cultura como factor de desgraça(da) du(m) povo

A cultura como factor de desgraça(da) du(m) povo

É difícil crer nisso, ipso facto, há conceitos e ideais que precisam de ser ou contextualizados ou, então, ultrapassados; algumas culturas carecem de actualizações, mas, se virem bem ao cimo desta revelação, notarão um adjectivo vinculado ao nome cultura, que é nocivo e infesto. Pusemo-lo porquê? O que é, grosso modo, cultura? Ora, os dicionários de língua portuguesa definem cultura […como…] aquilo que é cultivado. Esse conceito nos parece engraçado e inacabado porque suscita mais o seguinte quesito: o que é cultivado então? Conforme os mesmos dicionários, são: a educação, instrução, a sabedoria etc.

Não no-lo diria seguramente o determinista, todavia, parece-nos, a nós, que a palavra cultura carrega consigo bons significados, mas então qual é a extensão semântica desta palavra? Segundo Edward B. Tylor, antropólogo, a cultura é “todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade”.

Até aqui esta palavra cultura só nos presenteou com bons significados! Assim, surge mais uma pergunta: porquê então no cimo desta reflexão, no título, há lá um adjectivo nocivo DESGRAÇA, sabendo que o substantivo anterior só acarrecta boas qualidades semânticas? Bem, para respondermos a essa questão, teremos de viajar até ao Sul de Angola, na província da Huíla, no município do Quipungo, na cultura propriamente Nyaneka Humbi, do qual fazemos parte em virtude dos ancestrais da parte paterna. Reza a história que este povo, e outros da mesma linhagem, os nascidos de uma irmã têm mais privilégios que os próprios filhos. Dito doutro modo, eu, por exemplo, se tiver um filho, este filho, com efeito, não teria mais direitos  que o meu sobrinho, filho da irmã. Sabem o que acontece quando o pai duma família morre?

Os espólios todos são divididos entre os sobrinhos e irmãos; deixando a família, mulher e fi lhos, no alheio, ao relento sistematicamente. Lamentavelmente, quando conversava com o meu pai e perguntava-lhe a razoabilidade pela qual se sequenciam esses hábitos e costumes, mesmo sabendo que já não mais estávamos na era das cavernas, simplesmente, respondeu-me que fazia parte da nossa cultura desde os tempos longínquos, neste caso, isso não acabará agora, talvez vocês, falava de mim e de outros que vêem isso como abominação, é que poderão inovar e mudar.

Mas se cultura significa aquilo que é moral, educação, instrução, será que a prática de deixar pobre uma mulher que trabalhou e lutou para que conseguisse, com o marido e filhos, bens materiais, depois de falecido o marido, aqueles que nem sabem as lutas travadas por esta família, é que ficam com esses bens, será essa prática cultural é mesmo cultura no verdadeiro sentido? A nosso ver, NÃO, porque tudo que atropela os padrões morais universais é, ao invés de cultua, acultural, aquilo que fere os direitos da humanidade, não é cultura senão desgraça e crença cega.

Precisa-se construir sociedades pensantes e desconstruir ideiais e preceitos que que não abonam a vida, é preciso, ainda assim, usar o rácio para actuar-mos com responsabilidades e humanidade nos direitos das pessoas. Em meio à onda da linha gritante dalgumas culturas, a maxime, é imprescindível que se tenha gente de personalidade solar, gente com conhecimentos da noção de nação e humanista. Essa cultura, diga-se, se não for moldada, estará longe do conceito cultural.

O que mais nos deixa infeliz é o facto de esta actividade homicida ser praticada até hoje por esses povos e outros ligados aos mesmos hábitos e costumes. Não se pode admitir que alguém, às madrugadas chuvosa com os filhos e marido, vai à lavra plantar, fazer evoluir seus negócios, dia e noites, planeando como poderão enfrentar os desafios de falta de chuva, para irrigação e de medicamentos para seu gado, ao fi m, e ao cabo, basta que o marido morra para que este esforço seja reduzido a nada, a zero. É bastante desumano e acultural alguém não ter direito àquilo que seria/é seu por direito.

Mesmo que o esposo falecido deixe um testamento, enxovalham a família e a voz do esposo, deixado por escrito, neste testamento, perde peso ante tanta ganância de quem, se calhar, quando esta família lutava para formar sua riqueza, nenhum entre eles presenciou esses fortes e duros desafios. “Em parte, culpar-se-ia a ossatura educacional angolana que, de ferro a fogo, apresenta largos desafios, problemas e complexidades que se inter-relacionam com o panorama político, económico e social do país.

Esse quadro tem, em sede da historiografia, a sua origem em um processo que não é novo e que não pode ser dissociado de um contexto mais humanista e, transversalmente a isso, histórico. Promovamos a cultura mas sejamos mais humanos”, (Paulo Muanda, revisor linguístico).

POR: Gabriel Chinanga