É de hoje…Nem sim nem não

É de hoje…Nem sim nem não

Quando mais novos surgiam nos bairros aquelas conversas sobre amigos que não permitiam que uns paquerassem a menina mais bonita, ao mesmo tempo que eles nem se interessavam em fazer aquilo que os seus companheiros esperavam.

O não deixar fazer e ao mesmo tempo omitir-se de determinadas tarefas é uma das nuances a que muitos se vão especializando numa velocidade cruzeiro em Angola.

A forma absurda como uma maioria acredita estar envolvida num mero Big Brother, cujos resultados finais são supostamente conhecidos, leva-nos a não aceitar até o que parece estar aos olhos de todos.

Quando se anunciou o combate à corrupção, ainda na fase da campanha eleitoral do MPLA, era notório o sentimento de que o momento por que muitos ansiavam tinha chegado. Do lado oposto, surgiram os primeiros processos e os que apregoam energicamente a existência de uma perseguição familiar, política ou como se prefere agora ‘uma justiça selectiva’.

Longe da percepção darwiniana, é claro que os processos tinham de começar em algumas espécies, raras ou não, para o combate ao mal que chegou a ser descrito pelo Presidente José Eduardo dos Santos como o segundo pior depois da guerra.

Por mais que se critique, começa a ser tempo sufi ciente para se acreditar que o país já não é o mesmo dos intocáveis. Por mais que não se queira, mais cedo ou tarde a justiça se encarregará de julgar aqueles que de forma abusiva lesaram o país, sobretudo numa fase em que havia muito para melhorar a vida do colectivo.

Ontem, o Tribunal Supremo, que por sinal age em nome do povo angolano, decidiu-se pela condenação do antigo ministro da Comunicação Social e ex-responsável do GRECIMA, Manuel Rabelais e do seu braço-direito, Hilário Alemão, respectivamente a 14 anos e seis meses e 10 anos e seis meses.

Como qualquer outro cidadão inconformado com a sentença, Rabelais, Alemão e os seus advogados intentaram um recurso que deverá ser analisado pelo plenário do Tribunal Supremo nos próximos tempos.

Trata-se de um direito com algumas possibilidades: ver anulada a sentença, a pena reduzida ou ainda a manutenção da mesma. Aliás, estamos lembrados de um antigo responsável da Polícia Nacional que viu a pena aumentada quando optou pelo recurso.

Contrariamente, os inconformados de costume já vaticinam que se está perante uma peça teatral que não dará em nada. Este exercício leva-nos a recorrer à célebre estória do pato, em que se diz jocosamente que um governante terá usado uma linguagem difícil com os ladrões que invadiram os seus aposentos e estes não sabiam sequer se deixavam os bichos ou levavam?

No combate à corrupção parecemos caminhar para os mesmos termos. Quando não se julgava, muitos acreditavam estar no país em que tudo se permite. Agora que se julga, estamos perante uma simples peça teatral. Com o andar do tempo ainda concluiremos que somos todos uns bons actores.