Dia da Juventude Angolana continua a ser celebrado em meio a divergências ideológicas

Dia da Juventude Angolana continua a ser celebrado em meio a divergências ideológicas

Apesar de o tempo ter corrido, o 14 de Abril ainda representa um factor de discórdia no seio das principais organizações políticas juvenis que, entre “puxões” e negações, apresenta fractura em relação à data aprovada em 2005 pelas diversas agremiações

Hoje são contabilizados 16 anos desde que o 14 de Abril foi aprovado como o dia da juventude angolana pelas principais forças e organizações juvenis do país.

Apesar de o tempo ter corrido, o 14 de Abril ainda representa um factor de discórdia no seio das principais organizações juvenis políticas que, entre “puxões” e negações, apresenta fractura em relação à data.

Porém, a falta de unanimidade e sentido congregador da data é, para muitos entendidos, das principais razões que fazem com que a data passe despercebida da maioria dos jovens.

Nas ruas, nas universidades e noutros lugares a maior parte dos jovens desconhece a existência de uma data nacional que os representa em torno de um único objectivo.

Nesta passagem despercebida, acresce o facto de não ser feriado nacional e as comemorações oficiais, ao longo dos anos, não congregar os principais actores políticos juvenis, com enfoque para a oposição que se mostra oposta à efeméride.

Dados a que O PAÍS teve acesso, indicam que, à excepção da JMPLA, órgão juvenil do partido MPLA, a JURA (braço juvenil da UNITA) a JFNLA (FNLA) a Juventude Patriótica (CASA-CE) e a JPRS (PRS) furtam-se todos os anos de celebrar a data.

Na “mira” das motivações, estas organizações, embora tenham participado no processo de votação, em 2005, são contra as festividades em torno do 14 de Abril por ser uma data que homenageia José Mendes de Carvalho, conhecido nas lides militares como Hoji-ya- Henda, que foi um comandante do Exército Popular de Libertação de Angola (EPLA), o braço armado do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), sendo que morreu precisamente a 14 de Abril de 1968, aos 26 anos, num assalto a um quartel das tropas coloniais portuguesas, em Karipande, Moxico.

Para este ano, as celebrações centrais acontecem na província da Lunda-Norte, tendo à testa a ministra da Juventude e Desportos, Ana Paula Sacramento Neto, que vai conduzir, localmente, uma série de actividades das quais se destacam o lançamento do programa Abril Jovem.

Do programa oficial do Executivo consta que várias associações juvenis juntar-se-ão à efeméride para celebrar a data, desde organizações religiosas, político-partidárias, associação estudantil, da sociedade e todas associações que congregam jovens.

No entanto, à semelhança dos outros anos, a JURA, braço juvenil da UNITA, já se adiantou no “travão”, alertando que, mais uma vez, não fará parte das comemorações.

Em entrevista a OPAÍS, o secretário da organização, Agostinho Camuango, disse que a JURA não participará nas festividades por considerar que a data é uma homenagem ao patrono da JMPLA, Hoji-Ya-Henda.

Conforme explicou, a sua organização tem o seu patrono e não se inspira em datas que não reflectem as suas aspirações.

“A JURA está em contacto com outras organizações juvenis no sentido de se encontrar uma data consensual que venha a responder as expectativas de todos os jovens”, frisou.

PRS defende acções para lá da cor partidária

Por seu lado, o secretário permanente da Juventude do PRS, Gaspar dos Santos, disse, no início desta semana, que a juventude angolana anda desavinda por não existir uma lei que proteja os interesses supremos para lá da cor partidária.

O político defende ainda que há necessidade de uma maior fiscalização das políticas públicas criadas para a juventude para permitir que as acções sejam efectivamente concretizadas.

JMPLA :”É preciso tolerância e respeito”

Por seu lado, o primeiro secretário nacional da JMPLA, Crispiniano dos Santos, disse que, em relação ao 14 de Abril, dia da juventude angolana, já se falou muito dessa data.

A verdade, frisou, é que os jovens, sobretudo os que estão ligados aos partidos políticos, devem ser os mais sinceros, democratas e tolerantes possíveis.

Disse não perceber que uma data que foi aprovada por várias organizações, onde a maioria dos membros da associação é apartidária, seja motivo de reclamação.

“Ora, ninguém deve indicar a data da juventude. Ela deve ser votada pela maioria, como foi o 14 de Abril em Cabinda. Devemos ser tolerantes em aceitar e respeitar a vontade da maioria. Os jovens dos partidos políticos que reclamam em relação às associações que votaram a data são a minoria e devem dar exemplo de respeito à democracia”, defendeu.

CNJ : “um não assunto”

Ainda sobre a data, o presidente do Conselho Nacional da Juventude (CNJ), Isaías Kalunga, disse que a discussão em torno das divergências relacionadas ao Dia Nacional da Juventude é um não assunto, porquanto as organizações da sociedade civil e políticas participaram no debate em torno da aprovação desta data, em 2005.

Segundo o líder associativo, os focos cinzentos em torno do dia tem como principal motivação questões políticas, sobretudo a nível dos partidos da oposição, com enfoque para a UNITA.

Neste sentido, frisou, é irrelevante a luta por alteração de uma data que, aquando da sua aprovação, foram ouvidas diferentes organizações da sociedade civil, política e até religiosa.

No seu entender, a juventude angolana deve ser olhada e analisada para lá das questões políticas, situação que, no seu entender, enfraquece o espírito de luta.

Isaías Kalunga defende uma rampa de consenso na discussão dos assuntos relacionados ao bem estar da juventude e não circunscrever a luta numa data figurativa que é o 14 de Abril.

Justificou que a juventude angolana tem muitos desafios e não faz sentido que a discussão e análise dos problemas desta franja da sociedade estejam circunscrita ao 14 de Abril.

Segundo Isaías Kalunga, é preciso que todas as forças vivas da sociedade estejam disponíveis para discutir os problemas da juventude com elevação e contribuírem para que a efectivação das políticas públicas deste segmento populacional seja um facto.

Por outro lado, o presidente do CNJ reconhece as dificuldades actuais da juventude, sobretudo no que ao emprego diz respeito em função dos freios económicos que o país está a passar.

Contudo, apela aos jovens a serem criativos e a lutarem para que tenham os seus objectivos realizados.

Trabalhar para o desenvolvimento integrado dos jovens

Por seu lado, Jofre dos Santos, director do Instituto Angolano da Juventude, defende que deve-se continuar a investir de modo a desenvolver programas e projectos que visam a melhoria da qualidade de vida dos jovens como a facilidade do acesso à formação profissional e acadêmica, o acesso à saúde, à habitação, ao emprego e a outros programas que visam a relevância para o desenvolvimento integrado dos jovens.