Polícia diz que ajudou filhos do comandante da Boa-Fé morto a tiro

Polícia diz que ajudou filhos do comandante da Boa-Fé morto a tiro

O porta-voz da Polícia Nacional em Luanda, Nestor Goubel, em resposta a uma matéria publicada por este jornal, que dava conta das dificuldades de vária ordem por que passavam os filhos do comandante da esquadra da Boa-Fé, disse que a corporação nunca deixou de ajudar a família e os filhos daquele comandante, tendo inclusive arranjado um emprego para a esposa oficial e matriculado os filhos menores

Depois da publicação, pelo jornal OPAÍS, no último Domingo, 11, de uma matéria, com o título “Filhos do comandante da Boa-Fé morto por marginais passam dificuldades”, em que trouxemos as declarações da mulher tida como oficial, Ruth Dala, de 41 anos de idade, reclamando das dificuldades por que passam os oitos filhos seus de um total de 27 filhos que tinha o comandante –, a Polícia contactou- nos para reagir.

Dona Ruth disse que, depois da morte do seu esposo, o comandante Faustino António Luamba, de 44 anos, os seus oito filhos não mais voltaram a estudar, por falta de dinheiro para pagar o colégio.

“Desde que comecei a tratar das questões do meu marido, não recebo nada. Estou a me virar com kilapes que faço na praça, para conseguir vender e retirar o lucro de pelo menos 1.000 kwanzas, para sustentar os meus filhos. O pai é quem sustentava os filhos. Recebemos apoio do Comando de Viana e depois fiz um pedido de valores, no mês de Setembro, que recebemos 230 mil Kwanzas. Daí, até hoje, não recebemos mais nada”, reclamou, na altura.

Nesta senda, Nestor Goubel esteve nas nossas instalações para exercer o direito de resposta, após ser orientado pelo seu superior, por considerar uma inverdade que os filhos do comandante tenham sidos abandalhados.

“O comandante não era casado, pelo que tivemos de trabalhar com a viúva, cuja família considera como mulher oficial, que é a dona Ruth, uma vez que são, no total, nove viúvas. Inicialmente, por causa das despesas deu-se 250 mil kwanzas e os filhos, todos menores, foram matriculados”, disse.

Aquela acção, tal como disse, foi feita numa primeira fase, tendo seguido para a segunda que consistiu, segundo o porta-voz, em empregar a viúva. Ruth Dala, disse Nestor Goubel, trabalha como cozinheira no Comando Municipal de Luanda da Polícia Nacional, pelo que não sabem quais os motivos que a levaram a fazer aquela queixa.

“Por isso, a questão dos filhos menores está salvaguardada e ela foi enquadrada como cozinheira na Polícia. Além disso, ela devia ter explicado se o dinheiro para fazer o negócio saiu de onde, pois os 250 mil kwanzas foram também para isso. Não estamos a ver as razões que a levaram a dizer que não temos apoiado”, reforçou.

Enquadramento do filho mais novo

No mesmo dia em que ouvimos Ruth Dala, conversamos também com António Francisco Luamba, de 18 anos, o filho mais velho da relação entre Faustino Luamba (o comandante) e Ruth, que confirmou- nos as dificuldades por que passam. Pergunta-se como ele e os irmãos irão estudar se não têm dinheiro, uma vez que a pessoa que os ajudava foi assassinada. António não conseguiu concluir o médio, parou na 10ª classe, uma vez que estudava num colégio privado.

O seu tio, António Jacinto, irmão do pai, disse ainda que houve uma tentativa de enquadrar o sobrinho na Polícia Nacional, tendo na altura registado alguma dificuldade, porque não tinha ainda 18 anos e estava sem todos os documentos certos. Entretanto, mesmo depois de já ter a situação resolvida, não entendem como é que o filho mais velho não foi enquadrado.

Sobre este assunto, Nestor Goubel disse que o enquadramento na Polícia Nacional, do filho mais velho do comandante não é de carácter obrigatório. Acaba por ser um esforço que a instituição deva fazer, mas sem carácter obrigatório, pois a responsabilização legal é com os mais novos.

“Sim, trabalho como cozinheira”

Depois de ouvirmos o porta-voz, contactamos Ruth dala, a viúva e mulher oficial do comandante, que veio a nos confirmar que realmente trabalha como cozinheira na Polícia, nas imediações da Engevia-Via Expressa. Ruth falou connosco por telefone, precisamente a partir do trabalho.

Disse que começou a trabalhar em Janeiro, que ganha 62 mil Kwanzas, mas apenas usufruiu do primeiro salário, tendo tido dificuldades para receber os demais salários, não por culpa da Polícia, mas porque existe algum problema no banco.

“No mês de Fevereiro, todo o dinheiro me tiraram da conta, porque tinha pedido ajuda a um senhor desconhecido para tirar dinheiro no multicaixa. O cartão engoliu, fui na Polícia e depois ao banco e o gerente disse que a situação já está resolvida. Por causa desta situação, e porque estou sem multicaixa, não pude ver se tenho quanto na conta”, disse.

Quanto ao facto de terem colocado os filhos menores na escola, Ruth disse que não é bem assim, pois desde que o esposo morreu, os seus filhos não estudam, mas depois da saída da matéria no jornal OPAÍS foi contactada pelos recursos humanos do Comando Provincial e, nos dias 12 e 13 do corrente, pediram-lhe o número da escola, nome dos filhos e as classes que frequentavam, no sentido de resolverem esta situação.

Outrossim, quanto os 250 mil kwanzas dados pela Polícia, disse que, embora tenha feito o pedido de 250 mil, recebeu apenas 230 mil Kwanzas. Este dinheiro, Ruth dividiu com as outras viúvas e com a família do esposo. A sua parte (25 mil Kz), como nos confirmou, comprou negócio.

Morto a tiro, em Junho de 2020, por um grupo de marginais, Faustino António Luamba, de 44 anos, então comandante da Polícia Nacional na esquadra da Boa- Fé, município de Cacuaco, deixou 27 filhos e nove viúvas.