Um deus-homem sob o manto de uma figura simbólica (!?)

Confesso-vos: desde a tenra idade que me consider(ava) o um Ser-Humano Multidimensional qualificável para qualquer fórmula matemática que possa existir no campo da pobreza material e espiritual. Neste quesito, sempre fui um zero à esquerda. Porém, eis que hoje a nudez da dimensão polissémica da minha pobre vida se coloca à mostra, ante a presença fictícia de um ser ao qual um grupo de insectos, com um senso de razão a trilhar o campo semântico das titubeações, pôs-lhe o nome de Supremo, embora tal propalada e exaltada supremacia, fim ao cabo, não tenha uma incisão profícua no capítulo prático. Para mim.

Na verdade, a ver-se sob este prisma, valer-me-ia um “deus-água” (como diria Salvador de Jesus Ximbulikha, amigo e agora colega colunista neste bloco de reflexão). Mesmo que, entretanto, tal fi gura seja detentora de um paraíso- confuso que faz dos seus (pretensos) discípulos reféns de uma doutrina de Satanização. A prática, de certo, faz o mestre. A devoção fervorosa passa, também, por um processo de ensaios recorrentes. O tempo é, por consequência lógica, uma escola e a gente, então, aguenta-se.

De pés-separados, juro-vos que detesto homens-deuses! Irrita-me a sua postura anticomplacente e a sua indolência à prova de fogo, quando o assunto diz respeito à resolução cabal das hecatombes de uma determinada classe. Classe esta que, – e digo-o com um sentimento despido de qualquer revanchismo -, perde para a outra devido a uma ideia errónea fomentada pela sociedade hodierna segundo a qual “no âmbito da estratificação social, existem duas classes distintas- a A e a B”, sendo que esta última tem a obrigação moral – vejam este insulto à dignidade da pessoa humana – de se sujeitar à primeira e, assim, ver as regalias da monarquia absolutista somente no binóculo. Ora bolas!

À partida, depreende-se aqui uma pretensão algo tendenciosa de vilipendiar as leis magnas legitimamente consagradas para o mundo de um Eu-Colectivo. Um Eu que, no entanto, é vítima dos pecados alheios e sofre por isso. “A dor acostumada não dói” – farnosia lembrar (!?), aqui, com alguma contundência e veemência à queima- roupa, Camões, um homem de sapiência singular de cujas qualidades cognitivas se comparam à elevação de kilimanjero. Cérebro!

Credo! Já agora, insignes doutores da era moderna, uma vênia circunstancial que se impõe à dimensão do autor de “Os Lusíadas”, personalidade humana que, embora a petulância do orifício diacrónico mostre-se inconivente em nos revelar o verdeiro dia da sua chegada à vida, – assunto que ainda fica sob os segredos de uns “deuses-sapiens- dia-cronos-” (o termo é novo e, por obséquio, exijo a sua legitimação) e que, por isso, sobre as nódoas indeléveis dos tempos, convém-lhes contar o que lhes convém, diga-se-, em nada fica a dever à reserva moral e intelectual dos “gurus” de sua época. «Camões foi um “zarolho bué truta”, «embora lamentemos pelo facto de a pobreza extrema tê-lo levado relativamente cedo para o convívio com o ilustre Papá Abraão. Enfim…, volto à baila e começo a salpicar no cerne da questão:

As intemperanças que se me dão de oferta pela vida, vivo-as sozinho. Não partilho dores patrióticas com ninguém. E nem gosto que também as minhas sejam desvendadas. Sou antagónico à complacência e à compaixão que venha de outrem em forma de consolo. Isto me reduz à poeira. Aliás, completo hoje 29 séculos desde que me tornei adepto de Mokiti Okada e, para mim, vale a preço de sangue o valor ontológico do altruísmo (atenção que aqui traduzo este sentimento na perspectiva de não “contaminar” sofrimentos e nem me deixar escorregar por isso). O estado instantâneo da minha saúde pode estar doente, no entanto é intransmissível. Cada um com as suas façanhas que lhe podem motivar, noutra instância, praticar acções eventualmente beligerantes: “é um ser maldoso e literalmente repugnante aquele que, em pleno gozo das suas faculdades racionais, decide partilhar as suas máculas com outrem sem, porém, o seu prévio consentimento, mormente quando sabe, de per si, que as profecias ditas por um qualquer Moisés da época actual, de se ir a uma segunda Terra Prometida, constituem-se numa falha matematicamente comprovada ”- alertar-se-me-iam as vozes proféticas da Bíblia do Nada que fizeram do meu subconsciente o seu templo, vozes responsáveis pela regulação harmoniosa do meu senso-crítico-reflexivo-moral. Não se pode confiar missões hercúleas e vitais a um deus-homem, cujo plano único que dá corpo à campanha do seu consulado consubstancia-se, apenas, na arte de ser um bom fantoche. Há que ter cuidado!

Como deveis calcular, não se trata de nenhum pecado em identificar-se com um deus-homem qualquer. Trago à reflexão a importância de se fazer uma escolha acertada e bem pensada em certos momentos decisivos que concorram para a concretização das mais altas e nobres aspirações dos humanos. Há escolhas que valem vidas! Termino:

No lugar de um deus-homem com uma táctica apurada qual sofistas, servindo-se por isso mesmo da arte da persuasão e da oratória para manipular as suas presas, no entanto estático no seu plano de acção, acabando por servir apenas de uma espécie de figura simbólica, talvez convenha dar um voto de confiança a um “deus-água”, deus-vinho, deus-água- do-chefe, enfim, qualquer coisa semelhante a um deus com coragem exacerbada que, ao menos, sob o efeito da ressaca da última- Ceia, prometa-nos requalificar os Céus, mesmo que tal desejo não passe de um simples eufemismo momentâneo criado para enganar as agruras da vida.

Por: Laurindo Ihanjica