Polícia na Huíla descobre “África“ com mais de 100 crianças exploradas

Polícia na Huíla descobre “África“ com mais de 100 crianças exploradas

Quem visita a província da Huíla, concretamente a cidade do Lubango, encanta-se logo com as belas paisagens naturais e artificiais, mas a mulher mumuíla de várias idades, com os seus hábitos e costumes constitui o verdadeiro cartão-postal

O cenário deslumbrante proporcionado pela mulher mumuíla, nos últimos tempos, tem vindo a ser substituído pela presença de crianças com idades compreendidas entre cinco e 17 anos, que nos locais com aglomeração populacional, num grupo de quatro a seis crianças, vão pedindo esmolas aos transeuntes e automobilistas.

Este facto, está a fazer com que o cartão-postal da cidade, que é a mulher mumuíla, comece a ser substituído por crianças e adolescentes que dão voz ao slogan, “me nda lá shinguenda pla compla pau” (dá-me 50 para comprar pão), levando os turistas a afirmarem que quem nunca ouviu essa frase, não conhece Lubango.

Na esperança de pôr fim a essa mendicidade, o Governo Provincial gizou um Programa de Recolha e Reinserção das crianças no seio das suas famílias, mas não surtiu o efeito desejado, já que a fome que assola as zonas de proveniência, não dá tréguas.

O Comando Provincial da Polícia Nacional juntou-se à causa criando o Gabinete de Atendimento à Criança e Adolescente, que funciona junto ao Comando Municipal do Lubango. Os técnicos destacados para o efeito se encarregam de receber e dar o devido tratamento às denúncias que chegam sobre qualquer atitude que viole os direitos da criança, com realce para o trabalho infantil e de abuso sexual de menores, bem como assuntos ligados à criança em conflito com a lei.

Segundo apurou OPAÍS, a este gabinete chegam diariamente 100 denúncias. Com base numa dessas denúncias, a Polícia Nacional começou a desencadear, na Terça-feira, uma série de micro-operações para localizar os lugares onde pernoitam as crianças mumuílas e, consequentemente, os responsáveis por elas.

A operação, que prosseguiu até na noite da última Quarta-feira, 14, por sinal Dia da Juventude, permitiu a localização de três focos de concentração de crianças.

Um dos recintos, que alberga 130 crianças exploradas, sito na zona 10, do bairro Zage, os moradores apelidaram de África.

Foi atribuída essa designação não só pelo facto de África ser o berço da humanidade, mas pela extrema pobreza em que muitos dos seus habitantes vivem, cenário que é replicado nos locais onde tais crianças vivem.

Segundo constatou o jornal OPAÍS no local, as condições precárias traduzem-se na falta de alimentação, de assistência médica e medicamentosa adequada e até de cobertores para se cobrirem nas noites frias.

O que ninguém sabia é que por detrás destas crianças inocentes estavam adultos a se aproveitarem da sua fragilidade que comove os transeuntes e automobilistas que, de quando em vez, vão partilhando o pouco que têm por amor ao próximo.

As crianças com idades compreendidas entre cinco e 10 anos são enviadas, diariamente, à rua para recolherem dinheiro e bens alimentares. De acordo com uma fonte no local, cada grupo de criança que saí à rua traz em média, entre dois e quatro quilogramas de alimentos diversos, que repartem entre o grupo e o proprietário da residência.

Já as adolescentes, com idades compreendidas entres 13 e 17 anos, são exploradas sexualmente. Situação que aflige as autoridades policiais da província da Huíla.

O porta-voz do Comando Provincial da Polícia Nacional, sub-inspector José Chimuco, disse que no primeiro dia da operação, foram detidas mais de três pessoas implicadas nesta prática.

“É uma operação que a Polícia Nacional está a realizar para identificar quem são as pessoas que estão envolvidas na exploração de menores, já que temos informações preliminares que dão conta de que existem adultos por detrás das crianças pedintes”, disse.

Por outro lado, o sub-inspector José Chimuco confirmou ainda a existência de crianças que são vítimas de exploração sexual, garantindo que já foram detidas algumas pessoas implicadas na prática destes actos.

“Já temos algumas pessoas detidas suspeitas de terem cometido crimes de exploração de menores, através do trabalho infantil, na ordem de três pessoas, e outras, cujo número de integrantes ainda é sigiloso, supostamente envolvidas em abusos sexuais”, revelou.

A alegada razão da emigração dos menores

Durante a operação realizada nos bairros, acompanhada pela reportagem do jornal OPAÍS, os agentes da Ordem se depararam com a progenitora de uma das menores. A cidadã contou que a sua filha saiu da localidade da Batabata, município da Humpata, até à cidade do Lubango por falta de alimentação.

“Nós viemos aqui por causa de fome. Os nossos bois morreram por causa da seca e as nossas lavras também estão a secar. Não temos como fazer, por isso, tínhamos de vir até aqui para pedir pelo menos alguma coisa para comer”, desabafou dona Fátima, mãe de uma das crianças.

Entretanto, entre os três detidos, como presumíveis autores do crime de abuso de exploração de menores, estão dois cidadãos nacionais residentes nos bairros Benfica e Calumbiro, arredores da cidade do Lubango, também provenientes da localidade da Batabata.

O sub-inspector José Chimuco revelou que a operação contempla encontro com as autoridades tradicionais e polícias do município da Humpata, no sentido de localizar os pais das crianças para se proceder a reintegração no seio familiar.

Governador diz que lugar da criança é na família e na escola

O governador provincial da Huíla, Nuno Mahapi Dala, deslocou-se, ontem, ao município dos Gambos para avaliar os efeitos da seca no seio das populações, apontado como sendo a causa do êxodo rural de crianças em busca de alentos.

Questionado sobre as crianças da África, Nuno Mahapi Dala disse que o lugar das crianças é no seio familiar e na escola, daí que o seu Governo vai continuar a trabalhar no sentido de combater esta realidade com acções concretas. “Nós vamos continuar a combater estas práticas com acções concretas. É verdade que existem cidadãos que se aproveitam da fragilidade dos outros”, desabafou.

João Katombela, na Huíla