É de hoje…Joana Lina

É de hoje…Joana Lina

Defender a actual governadora de Luanda, Joana Lina Ramos Baptista, será por estes dias uma das tarefas mais difíceis no pais. A situação calamitosa em que se encontra a província serve, hoje, de arma de arremesso contra todos quantos se predisponham em tecer quaisquer elogios à governante.

Desde o passado mês de Dezembro, altura em que a governadora anunciou que o pelouro que agora dirige não iria rever os contratos com as operadoras de limpeza que se adivinhava um cenário nada bom para os luandenses em geral.

Infelizmente, o que muitos previam veio a acontecer. As operadoras saíram de cena, a quantidade de lixo aumentou, consideravelmente, o que obriga a uma grande engenharia para que se trave, de uma vez por todas, as hipóteses de uma calamidade sanitária nos próximos tempos.

O início das chuvas, que já se abatem sobre a capital de forma impiedosa, dilata todos os receios possíveis. Não há muita dúvida de que os hospitais na época seca venham a receber muitos pacientes por conta da displicência, o que de algum modo criará inúmeros problemas na saúde ou mesmo na vida de muitos angolanos.

O que se vive hoje nas ruas de Luanda, mais do que uma questão de má-fé pode ser traduzido num erro de cálculo provocado pela inexistência de um plano B que pudesse travar a progressão dos amontoados enquanto se negociava os nossos contratos.

Por mais que se critique a governadora, com razão, por parte dos luandenses e não só, também não se lhe podem retirar o mérito de ter demonstrado coragem para, de uma vez por todas, rever os contratos que de maneira despudorada enriquecia muitos empresários e até inquilinos do Palácio da Mutamba.

Contrariamente aos seus antecessores, alguns dos quais com impressões digitais claramente visíveis no negócio do lixo ou em pessoas próximas ao sector, Joana Lina tocou no âmago da questão, revendo aquilo que durante largos anos retirava dos cofres do Estado centenas de milhões de dólares, apesar do trabalho deficiente para serviços poucos convincentes.

Caso corresse de feição, sobretudo pela ousadia que teve, Joana Lina seria hoje ovacionada por todos. Alguns dos antigos inquilinos do Governo Provincial de Luanda, mesmo conhecendo a derrapagem que já existia naqueles corredores, faziam dos supostos novos modelos de limpeza meras operações de charme que acabavam por esconder os reais problemas do agudizado endividamento.

Pena que a actual governadora possa ter sido traída pelo tempo e pelos cálculos como acima mencionados. Um concurso que levou mais tempo para sair do papel e dar certo, assim como empresas desonestas que possam ter vencido a mesma contenda, apesar de não possuírem meios para o efeito. Às vezes, é assim que os cartéis marcam e sancionam aquelas pessoas que um dia ousam virar-se contra eles.