Macovi um projecto que vai além de formar xadrezistas

Macovi um projecto que vai além de formar xadrezistas

A escola Macovi Sport Club, localizada no bairro Popular, na rua da Gabela, em Luanda, é referência no que à massificação do desporto em geral diz respeito, quer a nível nacional quer a nível internacional. Fundada por Marceliano Correia Victor, a 26 de Julho de 1999, a Macovi é a escola que mais tem cedido atletas à Selecção Nacional

Tudo começou na província do Uíge, isto é, nas terras do “bago vermelho”. Marceliano Correia Victor, apaixonado pelo xadrez desde pequeno, contou que sempre teve o sonho de ser líder desportivo e de retirar os jovens do mundo das drogas, delinquência, prostituição e do desemprego.

Em virtude disto, fundou, nos anos 80, a Associação Provincial de Xadrez do Uíge (APXU), que viria a contar com o apoio do Governo Provincial.

Na província do Uíge, Correia Victor não conseguiu ter sossego para desenvolver a prática do xadrez nas comunidades em função da Guerra Civil que duraria nada mais, nada menos do que 27 anos.

Por essa ordem, viu-se obrigado a mudar de residência, sob pena de vir a ser executado pelos militares da UNITA, uma vez que eram implacáveis.

Posto na capital do país, Correia Victor não desistiu do sonho de formar grandes mentes no que respeita ao “desporto ciência”. Contou que encontrara, na véspera, a situação da modalidade em péssimas condições. “Quando cheguei em Luanda, o xadrez estava mal. Não havia escolas de formação”, afirmou. Pouco depois, Correia Victor criou o Clube de Amigos de Xadrez do Uíge (CAUX), com Avelino Fernandes, Nuno Reis e Manuel Eduardo, o qual resultaria num projecto que viria a ser marca no panorama desportivo nacional.

Mas, segundo Correia Victor, em virtude da morte do seu avô, Manuel Correia Victor, decidiu alterar o nome do projecto para Macovi Sport Club numa espécie de homenagem. Estava criado, assim, um projecto desportivo que vai além de formar xadrezistas, uma vez que visa, igualmente, dar uma nova vida aos jovens que se têm vindo a perder no mundo da criminalidade e da prostituição.

Por força das dificuldades financeiras, Correia Victor revelou que o seu elenco começou com apenas cinco atletas num dos quartos da sua residência, localizada na rua da Gabela, local onde encontra-se, até hoje, a sede daquela instituição. Já que o quarto não cabia para mais pessoas, uma vez que a intenção era formar mais atletas, Correia Victor solicitou a ajuda da Administração do Distrito Urbano do Neves Bendinha, o qual lhe deu um parque infantil abandonado, denominado “Augusto Ngangula”, junto ao Cine São João, espaço onde crianças e jovens aprendem, até hoje, o ABC do “desporto ciência”.

De lá, saíram e saem mestres internacionais que actualmente deslumbram nas formações do 1º de Agosto, Ditrov de Viana, Petro de Luanda, bem como na Selecção Nacional, isto é, nas provas internacionais, com realce para David Silva, Esperança Caxita, campeões africanos, Maria Domingos, vice-campeã africana, Delfina João e Sofia Rosália, Mestre FIDEs, Domingas Tavares e Ednásia Júnior. Neste momento, de acordo com Correia Victor, a Macovi Sport Clube conta com 500 xadrezistas divididos nas classes masculina e feminina. Para aquele responsável, o seu elenco não cobra valor nenhum para quem quiser formar-se em xadrez. “É tudo gratuito. Não cobramos nada, mas para outras modalidades exigimos pagamento de taxas”, disse Correia Victor. O dirigente afirmou que as aulas no que ao “desporto ciência” diz respeito, começam à tarde, a partir das 15:00 e terminam, às 18:30.

Fruto da sua “genialidade”, Correia Victor não ficou pelo xadrez. Surpreendeu tudo e todos e, hoje, a escola Macovi conta com dez modalidades, nomeadamente, andebol em ambos os sexos, futsal, judo, futebol, ciclismo de estrada, ténis de mesa, karaté- dó, futebol de praia, xadrez e basquetebol.

Instituição enfrenta dificuldades financeiras

O fundador do projecto, Correia Victor, revelou que a sua organização tem vindo a enfrentar imensas dificuldades no que respeita às condições financeiras.

De acordo com aquele dirigente, a instituição conta com o apoio da Jonce Construções e Saigás. Da Jonce Construções, a Macovi Sport Club recebe mensalmente uma verba na ordem dos 300 mil Kwanzas, sendo 100 mil da Saigás.

Ainda assim, Correia Victor fez questão de alertar que os apoios são insuficientes, uma vez que não servem para sustentar as modalidades, a saber: andebol masculino e feminino, futebol, basquetebol (ambos os sexos), ténis de mesa, ciclismo de estrada, futsal, futebol de praia, judo e karaté-dó.

O dirigente explicou que os apoios daquelas empresas são destinados apenas para o xadrez, sendo que para as restantes modalidades, a direcção da Macovi é que tem custeado as despesas, pagando do seu próprio bolso.

A escola, a número um em Angola, no que respeita à formação de atletas, tem-se debatido, também, com dificuldades de transportação e alojamento sempre que participa em provas fora de Luanda. Neste momento, a instituição só tem um mini-autocarro disponível para viagens, o que tem vindo a agastar o líder daquela organização. A reportagem do jornal OPAÍS apurou que a Macovi enfrenta, igualmente, escassez de equipamentos para a prática do andebol, basquetebol, só para citar.Enfrentamos, também, dificuldades em termos de alojamento e transporte quando estamos prestes a participar numa prova fora da capital do país”, lamentou. Correia Victor clama, também, por apoios de modo que o seu elenco consiga criar uma sede condigna, porque a actual, que se encontra na sua residência, junto ao Cine São João, não reúne condições.

O responsável disse que o seu grupo de trabalho já solicitou apoios junto da Administração do Distrito Urbano Neves Bendinha, mas que continua à espera da resposta. “Queremos construir a nossa própria sede. Já enviamos uma carta à Administração do Distrito do Neves Bendinha. Estamos a aguardar a resposta”, afirmou. Correia Victor fez saber que, mesmo se a administração fechar-se em copas, o seu elenco não irá baixar os braços, sublinhando que a Escola Macovi continuará a trabalhar para o desenvolvimento da modalidade nas 18 províncias de Angola. “Não gostamos de mendigar. Não somos bajuladores. Se por acaso, a administração quiser ajudar-nos, tudo bem. Ficaríamos satisfeitos. Se não disserem nada, a vida segue. O nosso objectivo mantém-se. Trabalhar arduamente para o engrandecimento do xadrez no nosso país”, disse o dirigente.

“Xadrez não é valorizado em Angola”

O líder máximo da Macovi Sport Clube entende que o xadrez não é valorizado em Angola, tendo atribuído culpas ao Ministério da Educação (MED). Correia Victor, homem de trato fácil, acusa o elenco de Luísa Grilo de não ter vontade de inserir a modalidade no programa curricular do sistema de ensino angolano. O responsável disse não compreender a falta de amor daquele ministério ao xadrez, uma vez que o “desporto ciência” traz imensos benefícios para o desenvolvimento do ser humano. O interlocutor lamentou o facto de haver pouca divulgação da modalidade por parte das autoridades competentes. “Claro que o xadrez não é valorizado no nosso país. A culpa é do Ministério da Educação. Eles não têm amor ao desporto, infelizmente. Por que razão é que não colocam o xadrez no programa curricular do sistema de ensino? Se fizessem isso, o país é que sairia a ganhar. Não percebo a falta de sensibilidade para com este desporto”, lamentou.