“Não sabia que as pessoas fossem capazes de ir tão longe, ao ponto de me julgarem como drogado”

“Não sabia que as pessoas fossem capazes de ir tão longe, ao ponto de me julgarem como drogado”

O músico e compositor angolano Yuri da Cunha, em entrevista a OPAÍS, fala sobre o seu novo projecto “Yuri da Cunha canta Teta Lando”, cuja primeira temporada, com quatro concertos, arrancou a 09 de Abril e vai até ao primeiro dia do mês Maio, com o qual pretende homenagear aquele ícone da música nacional, bem como através dos conteúdos das suas canções incentivar o resgate às nossas ancestralidades

Yuri da Cunha fala ainda dos conflitos que fizeram com que interrompesse o projecto “Yuri da Cunha Canta Artur Nunes”, que começou a desenvolver em 2012, assim como os comentários nas redes sociais que punham em causa a sua lucidez, devido ao seu novo estilo de vida.

Tem realizado desde 09 do corrente mês, concertos arrolados ao projecto denominado “Yuri da Cunha Canta Teta Lando”, que visa homenagear este músico. Qual foi a principal motivação para a realização do mesmo?

A motivação deve-se à grandiosidade de Teta Lando e do nosso país. Angola tem um valor muito grande e Teta Lando é aquele angolano que, de facto, é angolano, que serve como exemplo, que lutou em toda vida pelos angolanos e por Angola. Então, num momento em que os angolanos, como observo, estão todos de costas viradas, por causa das malambas da vida, achei por bem realizar este projecto. Existem muitos erros. E erros são erros, mas podem nos levar aos desamores.

Que mensagens pretende passar aos cidadãos ao cantar os temas deste músico falecido em 2008, tido como um dos pilares da música angolana?

Cantar Teta Lando é a melhor forma de dizer que estamos juntos, que precisamos de estar juntos, para dar exemplos importantes da nossa cultura e da nossa identidade. Aliás, nenhum povo é um verdadeiro povo se não tiver identidade própria. E Teta Lando ensinou-nos isso nas suas canções, como ele tantos outros. Mas, este músico, obviamente, por aquilo que ouvi durante toda minha vida nas suas canções, hoje mais do que nunca me fez perceber o valor de ser angolano.

Com este projecto, de alguma maneira, pretende igualmente resgatar os valores intrínsecos às nossas ancestralidades?

Isso é óbvio! Nós começamos com o projecto “O Reino” no ano passado, que representou a angolanidade, as origens dos angolanos, em particular, e dos africanos, no geral. É aquele projecto que deu alguns problemas, onde uns diziam que estava drogado, isso porque as pessoas não estão acostumadas a ver um africano de raiz. Porquê é que eu tenho de ser bonito como um branco? Ele é branco e a sua beleza tem a ver com a sua origem. Isso não quer dizer que eu como preto não seja bonito. Nos tiram as nossas vaidades (…). O cabelo crespo é lindo! “A carapinha é o acabamento de uma obra sem igual”, como cantou Teta Lando. Nos insistiram, nos obrigaram a engolir culturas alheias, amarraram as nossas mentes. Isso vem do tempo da escravatura e depois passou para o colonialismo. Chegou o momento e nós já mandamos, de alguma forma. Já não somos colonizados nem escravizados.

O que as músicas de Teta Lando representam para si?

Teta Lando cantou tudo, obviamente. Cantou sobre a “Menina de Angola”, ao mesmo tempo cantou “Reunir”. Então, se a música de Teta Lando não faz o angolano autóctone, o angolano de raiz pensar realmente no que vem, não adianta mais nós fazermos música. Eu digo sempre que quem ficou com a caneta de Teta Lando é o músico Paulo Flores. Temos ainda outros que nos dão essa caneta. Vejo um outro poeta, como o Prodígio. Não é nessa música mais nossa, mas quando ele vem para falar, mesmo no seu rap, ele transporta palavras fortes ligadas a nós. Então, se nós conseguirmos meter ao nosso povo as nossas melodias, o Prodígio amanhã não será apenas um rapper, porque ele terá o carinho das pessoas, mesmo cantando rap dentro da nossa batida.

E na segunda temporada pretende sair de Luanda?

Nós pretendemos andar em todo o país. Já reparou que este show não é como um daqueles que propriamente dá dinheiro. É preciso haver apoios, se queremos ensinar o nosso povo a ser angolano, principalmente das estruturas do Estado. Se é a promoção de Angola, a promoção da música angolana, as estruturas do Estado têm de vir à frente. Estou a falar das coisas da nossa terra. Então, têm de vir à frente, têm de se fazer presente. E eu acredito que virão. A minha mão já foi dada, agora preciso que os outros também dêem as suas mãos.

Falou sobre apoio do Estado. Teve um prévio contacto com o Ministério da Cultura, Turismo e Ambiente para que de alguma maneira apoiasse esta iniciativa?

Iniciativas como estas o Estado tem de resgatar, porque por mais que eu possa falar, por mais que eu possa fazer, se não haver essa vontade é só mais eu que falei. Os shows estão aí, todos estão a ver. Vocês da imprensa também vão fazer o vosso trabalho, que é divulgar. Se houver alguma falha podem criticar, porque será para nós corrigirmos. Estamos aqui todos a trabalhar de modo a sermos melhores. Então, se vocês notarem alguma falha dentro disto, também podem corrigir, podem falar. Nós estamos aqui para corrigir os nossos erros. Mas, não pode apenas criticar, simplesmente, porque achas que as coisas têm de ser do seu jeito. Primeiro deve-se analisar os factos. Até as pessoas que estão a errar, pode ser por um outro motivo que você não esteja a notar, nem ele próprio. Por isso digo que o perdão, a forma de atenção é a última saída que nós temos para entender que o outro tem o direito de errar quanto nós temos. Agora, insistir no erro é mais do que burrice.

Semelhante a este projecto é o “Yuri canta Artur Nunes”, desenvolvido em 2012, foi interrompido por várias situações que envolveram a família do malogrado, entre outros. Esse foi o real motivo da interrupção?

A interrupção deste projecto deveu-se ao sistema “caranguejismo”, quando na verdade deveríamos estar juntos, tipo a Sociedade Angolana de Direitos de Autor (SADIA) e os familiares do próprio músico.

Não houve unanimidade na decisão de o permitirem cantar?

Não foi isso! (sem querer aqui comprar briga com ninguém, mas simplesmente a passar os factos reais), por exemplo, no projecto Artur Nunes fui até à Rádio Nacional de Angola e perguntei a quem devia contactar por parte da família do malogrado, para poder então ter uma conversa e alinharmos, mostrar o interesse em gravar as músicas de Artur Nunes. Nós como trabalhamos mais à base do respeito, do amor, antes de tratarmos das questões legais, fomos ter com a família, que concordou. De seguida, pensei em tratar da questão legal.

Como foi o desenrolar desta situação?

Quem é a família: A Tia Santa, a única irmã de pai e mãe do músico. Questionei como faria e disse-me que poderia trabalhar à vontade. Disse-lhe que, como venderíamos CD’s estava a pensar em dar 30 mil dólares depois das vendas. Na altura, vendíamos o disco a 10 dólares (mil Kwanzas). E o dinheiro que foi para fazer o disco veio de patrocínios de empresas angolanas. Logo, não podia ficar com aquele dinheiro sozinho. Claro, trabalhei e tinha de tirar a minha parte. Os primeiros 15 mil USD entregaram à Tia Santa na presença da mãe do Artur Nunes. Mas como outras pessoas queriam fazer- se ao projecto, ao invés de conversarem comigo enviaram uma equipa de jornalistas para me expor. Pegaram num irmão do falecido músico, usaram o homem como quem diz: vocês não receberam nada. Ao invés de contactar a irmã, como já tinham antecedentes, arranjaram problemas comigo.

Que situações constrangedoras criaram para si?

Disseram que roubei as músicas de Artur Nunes. Sujaram- me completamente e eu era mais novo. Como a pressão foi tanta, a única coisa que tive de fazer era mesmo desistir. Os jornalistas pediram-me 50 mil USD. Disseram-me assim: Yuri, tu tiveste patrocínios. Vê daí 50 mil USD e nós vamos abafar o caso. O senhor Lopito Feijóo da SADIA, eu falo por nomes, cria uma agitação entre essas pessoas, já que essa organização é reguladora dos Direitos de Autores.

Como assim?

Acho que ele devia chamar-me, reunir comigo, perguntar o que eu fiz à volta do projecto, e por que razão não fui ter com a SADIA, já que é a associação que toma conta dos Direitos Autorais de Artur Nunes, o que não era verdade, porque o músico estava inscrito a uma outra organização, onde nós devíamos ir. Simplesmente queria resolver o problema em que me meteram. Era novo, um miúdo e fiquei assustado. Por isso larguei este projecto para não criar outras coisas, até que fiquei a saber que nem a família tinha direito de nada. A única entidade com quem devia falar era a que cuidava dos Direitos Autorais deste artista.

Pensa um dia prosseguir com este projecto, já que agora sabe a maneira viável para o seu funcionamento e diz estar mais maduro profissionalmente?

Se o meu coração sentir hei-de fazer. Mas, para já, eu canto músicas do Artur Nunes porque eu sinto-as, mas trabalhar no projecto como tal, não tenho ainda esse sentimento.

E não teve as mesmas dificuldades ao trabalhar no presente projecto, relacionado com o trabalho musical de Teta Lando?

Nunca tive, mesmo ele em vida. Teta Lando queria que as pessoas cantassem as suas músicas e é realmente isso que acontece hoje. Todo mundo chora nestes espectáculos. E, então, quando Teta Lando diz “pois, não quero que os meus vindouros tenham o meu destino como herança”, ele estava dizer que queria ver isso que eu estou a fazer hoje, com orgulho, sem passar pelas problemáticas todas, as contrariedades que ele teve, mesmo sem querer fazer mal ao angolano. Apenas a intenção de uni-los.

E quando vai brindar os fãs com o seu próximo trabalho discográfico, depois do “Interprete”?

Vou dizer com muita sinceridade: eu tenho mais de mil músicas gravadas, mas não sinto neste momento da minha arte, da minha história como artista uma vontade ou pressa, ou um querer de lançar essas músicas, porque quando as faço não é para elas fazerem sucessos, mas sim para que as pessoas sintam. Depois disso se sentirem que são sucessos elas vão torná-las num sucesso. Por isso é que cada vez mais eu aprendo com o tempo. Quando era mais novo queria dançar, queria aparecer e ser um sucesso. Realmente eu tive essa fase. Mas como todo homem adulto, agora tenho 40 anos, tenho de decidir o que quero. E eu quero ser angolano cada vez mais. Quero poder passar uma mensagem de amor, de igualdade, de compromisso com a nação, de verdade, de honestidade, porque eu também tenho as minhas falhas, tenho muitos erros. Mas quando se trata de todos nós, tenho de parar a minha vontade, o meu egoísmo, porque o outro também tem o seu pensamento. Respeito quem não queira estar dentro. Agora, não respeito quem queira estar dentro, para sabotar.

Recentemente nas redes sociais surgiram comentários que punham em causa a sua lucidez. Como reagiu diante destes comentários?

Ensinaram-nos e aprendemos que nós temos que ser todos iguais aqui, na vontade e no querer. Antigamente nós só tínhamos um partido político. Agora tem vários. E eles todos estão a lutar por melhores condições de vida para os angolanos. Então, todos lutam para melhorar, mas com pensamentos e formas diferentes. E eu sou diferente das outras pessoas. Eu quero o que eu quero. Eu posso querer o que tu queres. Mas eu primeiro tenho de querer o que tu queres e só depois é que vou fazer o que queres. E se eu não quero, não faço. Só assim se pode ser verdadeiro. Só desse jeito o arrependimento vale à pena, porque não posso dizer que fiz por causa de outra pessoa. Assim eu assumo o meu erro e vou para frente.

Mas esses comentários estão relacionados com o seu novo visual, onde aparece um pouco mais magro?

O que é que acontece: eu decidi ser africano, ser angolano. E a forma que eu fui à busca é de não ser o angolano que imita o outro angolano. Nós aqui, durante muito tempo, tivemos a política de vida de que o angolano bem-parecido é aquele barrigudo, tipo um ministro ou deputado, esse é que tem saúde. Então pensamos que todos nós devemos ser assim. Eu desamarrei- me disso. Eu quero ser magro. Eu também já fui barrigudo. Decide que queria emagrecer e dentro das dietas umas vezes passas, noutras estás mais à frente. Mas, ainda assim, fui mais profundo. Nunca cortei todo o cabelo da cabeça, ficar careca. Eu disse que irei ao original. Ir ao original da mesma forma que fui criticado quando usei calças a ‘chover’, me abusavam quando usava roupas coloridas e depois todo mundo começou a usar. Eu só penso numa coisa: quando os angolanos começarem a se sentir angolanos de verdade, filhos da terra, com a sua própria cultura, a sua identidade, eles vão ser um pouco como eu. Os nossos antepassados, os nossos ancestrais usavam brincos e por quê é que eu não posso usar? Os pulas quando vêm usam brincos e todos acham normal, mas quando sou eu, preto, sou drogado! Não posso cortar o meu cabelo, assim estou maluco. Fizeram de propósito, eu não vou entrar em detalhes, porque nós conhecemos quem fez.

Mas estava realmente magro…

Claro que eu estava magro e estava triste. Já andava triste, o que é normal. Eu vivo de sentimentos. Vivo de emoções. Estava triste também porque era muita confusão naquela altura.

De que tipo de confusão se refere?

Os jovens a quererem comida e emprego, manifestação atrás de manifestação. Essa minha tristeza levou-me a ir à vigília que houve na Igreja Sagrada Família no ano passado, onde os jovens foram orar e a pedir por uma atenção. Eu fui lá ter com eles, que são angolanos. Não me interessou a questão partidária, mas sim o facto de serem angolanos, que estão a viver uma vida que não se dá nem ao cão. Até o próprio cão merece amor. E nessa altura me senti muito magoado que tive de descer dos meus ‘saltos’, sabendo dos riscos que iria correr, para estar perto dos meus irmãos. Porque de alguma forma, durante muito tempo sem perceber, eu não estive tão perto assim e fui abraçar os irmãos. Eles não foram partir nada, com a vontade que tinham. Fui eu que pedi naquele momento, conversei com eles, esclareci: manos, não adianta nós irmos partir, ir fazer confusão, quando na verdade, se calhar, é o que se espera. Nós temos que ter a cabeça no lugar. Você vai falar, de tanto falar vai cansar. Você não pode desistir. “Nós somos aquele povo que tem a esperança idosa, mas que também sabe que a guerra não é a nossa sina”, conforme canta Teta Lando. Eu já sabia do mal que iria dar, mas não sabia que as pessoas fossem capazes de ir tão longe, ao ponto de me julgarem como um drogado.

Aquela foi a sua primeira aparição pública com o novo look?

Sim! Foi quando veio a informação de que eu estava metido nas drogas, que o país precisa de me ajudar

Ignorou simplesmente esses comentários?

Não consegui ignorar no momento. Vou-lhe explicar o porquê: eu, por mim ignorava, mas sou pai. Sou um pai verdadeiro dos meus filhos. Da forma como fizeram, até se estivesse de fora, se não fosse eu, também pensaria que fosse mesmo um drogado. Tudo foi bem montado. E isso me magoou.

E de que maneira tentou ultrapassar esta fase?

Eu, com vontade de desistir de Angola, desistir dos angolanos, porque fui ali por amor, me meti na Camela, no Huambo. Quis andar pelo país, fui ao lado dos angolanos autóctones, os ancestrais que estavam lá, e eles me ajudaram a perceber que isso acontece a eles desde que quase nasceram, serem desprezados, postos como nada, até esquecidos, principalmente por nós, que viemos todos de lá. Nós esquecemos daquilo que o Dr. Agostinho Neto nos disse: Havemos de voltar. Esquecemos das nossas raízes, de onde saímos. E foram eles que me salvaram.