Especialista diz que acúmulo de lixo, chuvas e seca trarão graves impactos epidemiológicos nos angolanos

Especialista diz que acúmulo de lixo, chuvas e seca trarão graves impactos epidemiológicos nos angolanos

O especialista em Microbiologia Médica e vigilância Epidemiológica, Euclides Sacomboio, disse que o acúmulo do lixo em Luanda, as chuvas, a seca e a praga de gafanhotos, bem como o desemprego e a falta de oportunidade são problemas sociais que terão impacto grave na situação epidemiológica do país, nos próximos tempos

Em entrevista exclusiva ao jornal OPAÍS, Euclides Sacomboio disse que, hoje, o país em termos epidemiológico concentra-se em resolver os problemas da Covid-19, mas vários outros desafios sociais se transformarão em problemas epidemiológicos.

Explicou que o acúmulo de lixo em Luanda, as chuvas, a seca e a praga de gafanhotos, e outros problemas sociais, como o desemprego e a falta de oportunidades, terão impacto grave na situação epidemiológica, nós próximos tempos.

Segundo o especialista, o acúmulo de lixo, associado às chuvas, trará problemas como a cólera, as doenças diarreicas, as gastroenterites, as contaminações alimentares e outros problemas de saúde ainda por descobrir.

“Sem contar que com as águas paradas teremos a proliferação de mosquitos, moscas do sono e outras pragas que farão circular o nosso inquilino mais conhecido, que é a malária, assim como a dengue, a chicungunya, a doença do sono e outras doenças tropicais”, alertou. Sublinhou que a praga de gafanhoto e o desemprego poderão trazer a mal nutrição, as anemias e os envenenamentos por alimentos (quando as pessoas se alimentam com produtos ainda não prontos ou com substâncias impróprias à saúde humana, por falta de alternativas alimentares), frisando que isso já tem acontecido em pequeno número, mas essa possibilidade tende a crescer.

“Creio que agora teremos de tirar o foco da pandemia e nos concentrarmos no que importa, embora tenhamos aumentos de casos, percebemos todos que a Covid-19 tem impacto menor ainda na nossa população, no que tange à mortalidade e à busca de serviços de saúde”, esclareceu.

Concentrar-se em problemas que sempre foram reais

Por outro lado, disse que precisamos nos concentrar em problemas que sempre foram reais, se não fizermos isso voltaremos a ter um cenário parecido àquele que tivemos da febre-amarela e da malária em 2016, onde a mortalidade nos angolanos aumentou significativamente.

O que significa que teremos pouca capacidade em termos de recursos humanos (profissionais de saúde e outros), em termos de materiais e equipamentos hospitalares e estruturas físicas, para conseguir gerir o fluxo de pacientes que vão ocorrer em unidades sanitárias.

“Deste modo, teremos sim um real colapso no sistema de saúde, sem esquecer que a Covid-19 se fortalece em situação onde a imunidade colectiva está enfraquecida e a população está vulnerável”, disse.

O doutor em Ciências de Saúde, Euclides Sacomboio, disse ainda que essa não é apenas uma missão das entidades sanitárias, “o lixo precisa ser recolhido e os responsáveis por isso devem fazer a sua parte”.

“Presidente da República deveria ter um conselho científico”

Segundo o especialista, o saneamento do meio precisa ser adequado e os responsáveis, por isso, devem fazer a sua parte, sendo que a praga de gafanhotos deve ser contida e o desemprego precisa ser reduzido.

“quanto às entidades sanitárias devem começar a ajudar a população na prevenção de doenças. Devem dar condições às unidades básicas de saúde para atenderem o fluxo de doentes com condições mínimas de assistência humana”, disse. Acrescentou que as mesmas devem preparar, antecipadamente, a compra de medicamentos, testes e outros materiais para estarem preparados para atender as necessidades dos pacientes e devem criar mecanismos para impedir que esses e outros problemas possam complicar ainda mais a situação social e económica do país. “Precisamos criar o hábito de prever e prevenir problemas”, aconselhou.

Euclides Sacomboio aproveitou a ocasião para chamar atenção aos nossos dirigentes sobre a necessidade de aposta na investigação científica, por ser a chave para qualquer desenvolvimento, no que diz respeito à prevenção de problemas sociais, soluções e criação de estratégias para que as coisas andem melhor.

“Creio que o Presidente da república de Angola deveria ter um conselho científico ao seu dispor”, aconselhou. Por outro lado, “não gostaria de fechar essa nossa entrevista sem endereçar os meus  mais profundos sentimentos de pesar às famílias que perderam os seus entes-queridos com as chuvas e aqueles que perderam as suas casas e outras coisas. que Deus e todos nós os ajudemos a se recuperarem desse nefasto evento”, lamentou.

Ao invés de fecharem os centros de investigação deviam é abrir mais centros

Quanto aos centros de investigação, o mestre em  m Bioquímica e Biologia Molecular, aconselhou que em vez de se fechar, deveriam é abrir mais centros, colocar neles os verdadeiros investigadores, financiar os projectos de investigação e dar maior autonomia e independência para que a investigação seja realística e baseada na evidência científica.

“O político para tomar qualquer decisão precisará do conhecimento científico, foi isso que fez evoluir todos os países do mundo, é por ele que a China é potência mundial. É devido ao conhecimento científico que lavamos as mãos, fazemos diagnóstico de Covid-19 e agora estamos a vacinar (…). Para que o nosso país evolua, é preciso que esse conhecimento seja produzido aqui”, disse.

Euclides Sacomboio é doutor em Ciências de Saúde, mestre em Bioquímica e Biologia Molecular, Especialista em Microbiologia Médica e vigilância Epidemiológica, Docente do Instituto Superior de Ciências de Saúde/universidade Agostinho Neto (ISCISA/uAN).