É de hoje…Era uma vez… um reformista

É de hoje…Era uma vez… um reformista

Foi sob o apanágio das reformas internas que Lucas Benguy Ngonda, ainda na casa dos 60 anos, atirou-se contra o Velho Holden Roberto.

Na altura, tal como propusera no seu manifesto, a FNLA precisava de uma reforma interna, porque esta organização política, uma das mais influentes antes do alcance da independência, não conseguira acompanhar os tempos modernos.

Irredutível até um certo momento, porque igualmente na sua áurea de permanecer à frente da organização, Holden Roberto manteve o partido fechado durante um certo momento, o que facilitou as pretensões de Ngonda, até então tido como o reformista.

Não havia dúvidas de que a organização precisava de algumas reformas, mas o que prevaleceu no seio de muitos era que o então reformista teria uma mãozinha invisível por trás. Ainda assim, um grupo de jovens decidiu apoiá-lo, entre os quais pontificavam Laiz Eduardo, Paulo Jacinto, Tristão e outros.

Foi com o apoio destes jovens, alguns preferiram demarcar-se do octogenário, que Ngonda conseguiu impor a Holden Roberto e pares o chamado Acordo da Pensão Invicta que, consequentemente, originou o Congresso da Reconciliação na Filda.

Legalmente, não impede que este concorra a mais um mandato, uma vez que os próprios estatutos da organização assim o permitem. Moralmente, certamente que não haverá muitos motivos para que se olhe de bom grado a mais esta investida do ainda presidente da FNLA.

Longe dos propósitos que defendia durante algum período, quando se olhava para Holden Roberto como sendo uma fi gura já extemporânea para levar a organização a bom porto, hoje não haverá dúvidas de que as reformas propaladas durante algum período não passaram de uma quimera.

Num ambiente político em que se denota um certo rejuvenescimento de idade e de pensamentos a nível dos principais concorrentes políticos, está por se saber quais serão os trunfos que desta vez Lucas Ngonda, aos 81 anos, terá para convencer o eleitorado que foi perdendo aos longos dos anos, transformando a FNLA numa força residual com um único deputado na Assembleia Nacional. No caso, ele mesmo.

Ao se confirmar a candidatura para mais um mandato, supostamente por ser tido como um factor ainda de estabilidade, o político poderá ver esfumar-se as razões que um dia evocou para ‘correr’ com Holden Roberto. E é provável que este, na tumba, lá no Reino do Kongo, tenha esboçado um sorriso e atirado: era uma vez o reformista…