Os adolescentes hermafroditas que a TPA mostrou

Os adolescentes hermafroditas que a TPA mostrou

No domingo passado, a TPA transmitiu uma história comovente sobre dois adolescentes hermafroditas, filhos de uma mulher abandonada pelo marido no Sul por lhes ter dado esses descendentes. Embora os rostos estivessem desfocados para proteger a identidade dos adolescentes, era possível distinguir os olhos vermelhos de lágrimas daquele que se considera um rapaz. Os dois falaram da sua dor pelas zombarias que sofriam e do seu desejo de ter um género claramente definido. Têm entre 10 e 13 anos, acho, já não me lembro bem. Mas, nessas idades, as associações dos países mais desenvolvidos recomendam seguir a escolha do interessado.

Essas associações querem acabar com as práticas médicas de atribuição de sexo em meninas ou meninos feitas antes da idade da sua capacidade de decidir, militam para que as crianças cheguem a uma idade mais avançada para que possam decidir o seu sexo com conhecimento de causa. É uma forma de escapar do desprezo em que as suas sociedades ainda os mantêm. Porque, na linguagem médica, o hermafroditismo humano é definido como um estado de ambiguidade sexual no mesmo indivíduo, caracterizado por uma mistura de atributos sexuais femininos e masculinos. É considerado uma anomalia do desenvolvimento sexual. Um hermafrodita possui características genéticas, hormonais e físicas que não são exclusivamente masculinas nem femininas, mas típicas de ambos os sexos.

Portanto, no nível físico, a pessoa pode, por exemplo, ter uma vagina incompleta e um pénis muito pequeno. Geralmente é o motivo no Ocidente que obriga os pais e a equipa médico-cirúrgica a atribuir um género ou uma identidade social à criança sem poder pedir a sua opinião. O tratamento do hermafroditismo é baseado principalmente na cirurgia para remover o tecido do sexo oposto e na terapia de reposição hormonal. Por trás dessas histórias, descobrimos como a violência das normas sexuais ainda é exercida hoje, ao ponto de mutilar corpos. O sofrimento desses adolescentes entristeceu-me muito e lembrou-me da tolerância que havia em Mbanza-a-Kongo durante a minha infância.

Deixei essa cidade com a crença fundamental de que um ser humano é um ser humano, independentemente da aparência física, fortuna ou estado de saúde. Tínhamos em Mbanza-a-Kongo o nosso querido Yes-Na-Yes, que assim chamávamos por carinho, que gostava de gingar com orgulho como uma mulher nas nossas ruas e cuja orientação sexual nunca era mencionada por ninguém, não importava. Mesmo que ele se vestisse, andasse e falasse como uma mulher, apesar da barba cheia no seu rosto, ninguém queria saber se era uma mulher ou um homem. E gostava de cozinhar para os rapazes do nosso bairro e tinha desenvolvido uma paixão louca pelo Mivé, a que chamava, em lingala, “Mobali-Na-Nga-Mivé!” (Meu-Marido-Mivé!). Além do pano de wax que gostava de amarrar nas nádegas, sobre as calças, pintava as unhas com verniz de cores vivas, passava batom e cantava na rua com uma voz muito feminina a saudade da sua terra natal, Makela do Zombo, quando passava com uma bacia na cabeça para ir entregar ao Mivé a comida que preparava com amor para ele.

A situação desses adolescentes do Sul também me lembrou outra história da nossa família. Uma irmã mais nova da minha mãe, que se casou com um famoso comandante da FNLA, permitiu-nos conhecer os filhos que este teve com outras mulheres e um deles era hermafrodita. E ele parecia ser um homem quando eu era pequeno. O que ele e o YesNa-Yes tinham em comum era que ninguém os estigmatizava ou discriminava em Mbanza-a-Kongo. Pelo contrário, eram pessoas perfeitamente integradas na nossa feliz sociedade e respeitadas por todos, porque naquela época o ser humano ainda era – acima de tudo – um ser humano. Só mais tarde, em França, soube que o YesNa-Yes era homossexual e o outro, o primo por aliança, hermafrodita. E foi conversando com os mais velhos que fiquei a saber que esse primo até menstruava e que o seu peito mudava de forma. Mas ambos eram amados e respeitados na nossa comunidade, apesar das suas diferenças. O Yes-Na-Yes passava dias inteiros com os rapazes do bairro conversando, cantando e rindo com eles.

O primo hermafrodita não morava em Mbanza-aKongo. Mas cada vez que vinha visitar-nos, recebia o tratamento de todos os seres humanos e os mais jovens o viam como um mais velho, com todo respeito. Não sei onde anda o Yes-Na-Yes, mas o primo hermafrodita conseguiu fazer uma operação aqui em França e é até pai de uma menina hoje. Portanto, esses adolescentes hermafroditas do Sul precisam viver numa sociedade que ainda possui a sabedoria e grandeza ancestrais africanas, e não numa sociedade envenenada pela colonização e por religiões intolerantes e maniqueístas. Podemos salvá-los amando-os como são, assim como a sábia sociedade de Mbanza-a-Kongo amava o Yes-Na-Yes e o primo hermafrodita. E ainda temos que os ajudar a alcançar os géneros que escolheram na frente das câmeras da TPA, é o mínimo que podemos fazer por eles.

POR: Ricardo Vita