Cego da Funda ´no fundo´ outra vez

Cego da Funda ´no fundo´ outra vez

Quando foi abordado pelo Jornal OPAÍS, no final de 2020, António Alberto clamou por ajuda para não ver os seus filhos contraírem cegueira, como ele. Outra situação por si suplicada foi apoio para poderem ter pelo menos uma refeição condigna por dia. De lá para cá, o Cego da Funda como é também conhecido perdeu uma filha de três anos.

António Alberto disse que a sua situação piora cada dia que passa, ao ponto de, actualmente, já não conseguir ter o que pode chamar de uma refeição por dia, pois, deixou de receber cesta básica mensal da Associação Nacional de Cegos e Amblíopes de Angola (ANCAA), a única instituição que, desde o último trimestre do ano passado, passou a prestar-lhe auxílio.

“Nesse momento, estamos a passar mais mal do que em Setembro de 2020. A associação já não consegue dar-me qualquer coisa para comer, devido ao incumprimento de outros beneficiários de créditos ou financiamentos, que, até agora não conseguem reembolsar”, declarou o invisual, alegando ter recebido essa informação da secretária da ANCAA, Madalena dos Anjos.

Vale lembrar que, desde Outubro do ano passado, por via de algumas reportagens que este Jornal publicou sobre os clamores de António Alberto, essa instituição se disponibilizou a apoiá-lo material, académica e profissionalmente.

Antes do ano terminar, a ANCAA dava uma cesta básica mensal para António e a sua família, além de algum dinheiro para arcar, sobretudo, com as despesas do transporte, bem como submetia o Cego da Funda a algumas formações, já que ele explorava uma lavra na Funda, cuja produção lhe servia para o sustento, sempre que não houvesse impasse.

Aliás, foi a última formação de Dezembro de 2020 que deixou António Alberto bastante esperançoso para a reactivação do seu negócio agrícola, pois, segundo o que lhes tinha sido anunciado, na altura do curso, depois que o terminassem, viria o crédito ou financiamento para reforçarem os seus empreendimentos e devolverem o valor emprestado um ano depois.

Não tendo acontecido a doação do dinheiro, o invisual sentiu-se sem balizas para recuperar, porquanto quase tudo o que arrecadou das pouquíssimas vendas de rama e jimboa da lavra de subsistência tinha investido na realização do óbito da filha de três anos, no final de Janeiro deste ano.

“Olha, quando morreu a minha filha, estava sem dinheiro para fazer alguma coisa. Ainda recorri à associação, pedindo 5 mil kwanzas e a secretária Madalena deu-me 20 mil, que já ajudou para mandar até fazer o caixão”, recordou António, que lamentou o facto de a Direcção Municipal da Acção Social e a Administração do Cacuaco lhe servir pouco ou nada, nesses momentos de muita aflição.

Ele sublinhou que foi a partir do passamento físico da sua filha mais nova que começaram a passar muito mal, porque, depois daí, vizinhos, amigos, familiares e alguns conhecidos que, no momento, prometeram apoiá-los mais do que antes, simplesmente, sumiram, conforme o próprio fez questão de referir.

Refira-se que dos quatro filhos que restaram de António Alberto, o mais velho de 13 anos, Mateus António, já se dedicava à pesca para ajudar a família com a venda do mesmo, actividade em que era auxiliado pela avó materna, uma entre os sete membros que vivem com o invisual da Funda.

“Mas eu tive de orientar o Mateus a parar com a pesca, porque a actividade exigia acordar muito cedo e ele estava quase sempre a ficar doente”, frisou.

Sobre doenças, António revelou que os seus filhos estão constantemente doentes, por conta da situação alimentar.

Há duas semanas diz ter lutado para a recuperação de Luciano de seis anos de idade, quando, no mês de Março já tinha efectuado igual luta, para trazer de volta a saúde dos filhos Alexandre e Rafael António, de 11 e oito anos, respectivamente.

Credores não devolvem dinheiro

A secretária da Associação Nacional de Cegos e Amblíopes de Angola (ANCAA), Madalena dos Anjos reafirmou o compromisso que a sua organização tem de ajudar no que pode os filiados, associados e outros que a instituição entenda cadastrar.

“Mas, como estamos sempre a dizer, nós também dependemos de um doador internacional e, com a situação da pandemia, quase tudo ficou mais difícil para eles, segundo o que nos transmitem. Ainda assim, os beneficiários dos créditos não devolvem o financiamento”, lamentou a secretária da ANCAA.

Para dar um exemplo, ela fez alusão ao último incumprimento, tendo detalhado que, das 15 pessoas de Luanda que receberam crédito, em 2019, e das 12, no Cuanza-Sul, até à data desta entrevista, ainda não fizeram a devida devolução de valores, que rondam entre 40 e 50 mil kwanzas.

Os beneficiários tinham um prazo de 12 meses para reembolsar o dinheiro, facilitando, com isso, o relatório de prestação de contas da associação, que se serve disso, para obter outros financiamentos.

“As pessoas, às vezes, só se esforçam a perceber na hora da necessidade. Depois de receberem quase que ignoram que o incumprimento condiciona a prossecução das doações”, realçou a secretária, tendo acrescentado que a sua organização tem de informar, constantemente, o que esse dinheiro reactivou na vida dos beneficiários.

Madalena dos Anjos informou que a condição que esses beneficiários de 2019 submeteu a ANCAA, impede até que se lavre o documento relativo à prestação de contas e solicitar outros apoios.

“Mesmo assim, ainda tentamos pedir para mais 15 pessoas, onde estava incluso o senhor António Alberto, mas eles nos negaram, por não termos cumprido com o acordo”, disse entristecida Madalena dos Anjos, tendo acrescentado que se apercebeu por terceiros que esses beneficiários foram todos abaixo.