A qualidade da educação define o nosso futuro

A qualidade da educação define o nosso futuro

Há poucos dias, soube que um professor afirmou, em sala d’aula, que concorda com o pensamento segundo o qual criança com menos de 5 anos de idade é um ser irracional. Fiz diversas reflexões para interpretar tal informação, mormente por ter acontecido na mesma semana em que foi dito, publicamente, e com reposição, que “há professores que não sabem ler”. Não é do meu domínio nenhum estudo, pesquisa, inquérito, estatística ou documento nacional equivalente que ateste, em numerário ou em percentagem, que existam, e onde se encontram, professores que não saibam ler. Entretanto, é um tanto quanto insensato duvidar das informações avançadas por pessoas autorizadas, abalizadas, experimentadas e tão adultas, mormente quando falam, com toda e responsabilidade que lhes é característica, num programa de televisão que se propõe de maior audiência.

E quem reagiu, oficialmente, às tais afirmações? Quem veio desmentir ou confirmar? Dado o respeito que nutro por muitos bons professores que conheço pessoalmente, não me pareceu normal que a seguir a tão graves afirmações se fizesse silêncio. Primeiro, por haver uma classe a defender, mesmo que haja uns maus dentro dela, depois, por haver quem se possa responsabilizar e quem seja competente para despoletar os mecanismos legais e imediatos para aferir, esclarecer e corrigir tal situação, caso seja verdadeira. Tendo havido silêncio, pode-se reafirmar o ditado “quem cala consente” ou é caso para bradar que quem cala ignora? A ser verdade que haja professores mal preparados para o ofício, de quem é a responsabilidade de inverter o facto? Certamente, existem métodos para identificar e perceber por que portas entraram para o sector os tais professores despreparados.

Mais, é possível definir-se em que nível do seu processo de formação terá ocorrido a debilidade e sob que motivação terão entrado para esta carreira que devia ser por merecer. Já agora, é preciso delimitá-los para que se saiba se estão no sector público, privado ou comparticipado. Haverá alguém habilitado a, em nome dos bons professores, intentar a defesa da classe. Pelo mínimo de respeito que se tem pelos professores deste país, e pelo tanto de que deles depende a qualidade de nação que temos e a que havemos de ter. Numa sociedade que aprendeu que “quem não tem cão caça com gato”, é importante averiguar em que circunstâncias alguém com debilidades pedagógicas é posto na condição de PROFESSOR. Não pode ser, decerto, por mero descuido dos sistemas de contratação.

Tanto o presente quanto o futuro do país estão intrinsecamente ligados à qualidade da educação que se deu à maioria da juventude hodierna, porque são eles os pais e professores das crianças que, então, são o garante da sua sucessão. Não duvido que haja professores que só “não saibam ler” na escola pública, por ser lá onde faltam livros para ler, sala de leitura confortável, bom salário e um conjunto de outras tantas condições necessárias para uma boa e cuidada leitura, quando os mesmos, no âmbito da dupla efectividade, são grandes leitores, produtores de bons textos e doutros conteúdos académicos, tudo porque lá, no outro patrão, as condições são, de longe, melhoradas.

Que tal uma troca de experiências entre os donos desses outros estabelecimentos, onde a segunda efectividade se realiza, e as pessoas ligadas ao poder decisor, a quem compete executar ou facilitar a execução das melhorias que o sector da educação (pública) vem clamando há décadas?! Formar um pensador, preparar um cidadão para a vida, potenciar alguém para servir à sociedade, é uma tarefa difícil. É um investimento, seja ao nível familiar, seja ao nível institucional. E é necessário, tão necessário quanto garantir que no futuro haverá zero analfabetos, zero hospitais sem médicos, água limpa para beber, estradas iluminadas de noite, funcionários públicos menos corruptos, melhor tratamento do “lixo”, ocupação sadia dos tempos livres, enfim, a qualidade de vida e desenvolvimento humano, de facto.

E o papel dos professores é vital neste processo. Se hoje olhar-se para isto como que a ver uma peça de teatro, de que nos valerá ter aprendido o pouco que sabemos hoje? É bom que se saiba identificar os problemas do sector da educação. Mas melhor é que sejam executadas as medidas para se contornar as situações anómalas com urgência, eficácia, eficiência e resiliência. Procrastinar é maléfico. O país tem, sim, bons professores. Pessoas que muitas vezes trabalham mal remuneradas, em condições que degradam a sua saúde física e mental, suportam fi lhos alheios e mal educados, aturam chefes vaidosos e arrogantes, e outras dificuldades sociais, sob o desprezo de quem os devia pôr ao colo, já que define-se o futuro do país com base na qualidade da educação que se dá. A solução é urgente: corrigir os que estão mal e melhorar os que estão bem.

POR: Manuel Cabral