“Coroação” de Eddy Tussa como príncipe do estilo Semba gera controvérsias

“Coroação” de Eddy Tussa como príncipe do estilo Semba gera controvérsias

A coroação de Eddy Tussa como príncipe do estilo Semba, feita pelo ministro da cultura, Turismo e Ambiente, Jomo Fortunato, no passado Domingo, 2, durante um show live do cantor, realizado no município do Cazenga, transmitido pela TPA, deixou indignada a classe artística, pelo facto de considerarem haver outros artistas que mereciam tal distinção. Embora se respeite a decisão, os questionamentos são o mote do assunto incluindo nas redes sociais, em que as opiniões continuam divididas

A referida distinção deve-se ao facto de o artista explorar o género semba, através das composições e versões de grandes clássicos da música angolana, com o intuito de dar continuidade ao processo de preservação e valorização da cultura nacional e também fazer o uso das línguas nacionais, com a finalidade de darem mais originalidade às letras.

O responsável do grupo Nguami Maka, Jorge Mulumba, em conversa com este jornal , disse que, apesar de reconhecer que Eddy Tussa seja um intérprete de muitas canções, pelo trabalho de imortalização de músicas de artistas, a maior parte deles falecidos, não concorda com a distinção, mas respeita a decisão da entidade governamental.

Realçou, entretanto, que considera o artista como sendo revolucionário do semba, mas não percebe o motivo pela qual foi coroado como príncipe do estilo Semba, o que terá sido justificado pelo ministro Jomo Fortunato no evento. “Não sei se existe um critério para coroar o Eddy Tussa como príncipe. E se é príncipe deste estilo musical, não conhecemos um rei. Esta é uma questão que deixo para reflexão”, indagou.

Jorge Mulumba questiona ainda se essa distinção terá sido programada pela Administração do Cazenga, em que Jomo Fortunato foi convidado a fazer a entrega da coroa, ou se o ministro sabia da pretensão que, segundo ele, devia ser feita diante dos órgãos de comunicação social público e privados para a devida divulgação.

“Tudo aconteceu num evento que o produtor do Cazenga realizou em parceria com a administração local e teve cobertura da TPA. E foi convidado o ministro. Por vários motivos que desconhecemos , fomos todos surpreendidos. Também temos outras questões a perguntar”, voltou a indigar Prosseguiu dizendo que “ Yuri da Cunha, Paulo Flores, o Calabeto, que é um músico resistente do Semba, o Lulas da Paixão e outros, por que não foram distinguidos com essa coroa, e ser o Eddy Tussa, que é muito mais novo intérprete. Apesar de ter três ou quatro discos no mercado, é mais intérprete do que compositor, enquanto temos aí compositores e intérpretes, defensores do semba e não foram distinguidos. O género semba também não tem um rei. Temos é o rei da música angolana, que também não é rei do género semba, mas da música angolana”, desabafou.

Outro questionamento

De acordo com uma fonte que preferiu não ser identificada, questionado sobre a situação, disse que o ministro deveria tê-lo coroado como um dos príncipes e não como se fez parecer, o único príncipe, por haver outros artistas que divulgam à música popular e merecem também essa distinção.

“Não gostaria muito de dar uma opinião em função da atitude do ministro. Ele é soberano e sabe por que razão tomou essa decisão, apesar de haver muitas contestações a nível da classe”, observou o também guitarrista.

A fonte foi ainda mais profundo ao dizer que, pelo facto de se tratar de um artista que faz carreira interpretando temas de outros músicos, devia-se ter ainda mais cuidado ao ser atribuído essa distinção.

“São estas músicas que os outros fizeram que eles estão a se apegar. É preciso se ter muito cuidado. Vimos que não é um potencial individual, mas praticamente colectivo”, salientou. Explicou ainda que um rei tem vários filhos que são denominados como príncipes, o que pode implicar que existem outros príncipes e não apenas um. “São muitos que estão a defender uma matriz. Estou a ver as coisas neste prisma e não como uma titularidade única”.

Diante desta situação, o músico levantou a questão relacionada com a atribuição do título de rei da música angolana ao músico e compositor Elias Dyá Kimuezo. Apesar de acontecer há várias décadas, considera ainda questionável e pergunta se o título de príncipe do estilo semba não será abordado da mesma maneira?

Por sua vez, o activista cultural Francisco Armindo referiu que, apesar de apreciar o trabalho feito pelo músico, que muitas das vezes aplaudiu o facto de dar uma nova vida às músicas da vertente semba, aquelas que foram feitas desde os anos 70, que permitiu a promoção das mesmas, igualmente discorda com a atribuição.

“Não colaboro, não concordo com a promoção correspondente a este título de príncipe do semba, apesar de ele difundir estas músicas que muitos jovens não conheciam, como a música dos Jovens do Prenda ‘Ngongo’, disse.

O activista cultural também questiona se a decisão não terá sido precipitada, por observar que tal distinção não devia ser feita em consequência do sucesso das músicas regravadas de outros compositores, e que se devia também ser avaliado as composições feitas por ele.

“As músicas feitas por ele não fazem tanto sucesso como as novas roupagens. É muito mais fácil pegar em uma música antiga e regravar, sendo que deve apenas acompanhar as actuações do artista que pretende regravar e incluir novos instrumentos musicais, como o teclado, sopros que nos anos 70 não existiam e encher mais a música”, constatou.

O cantor

Eddy Tussa surgiu no panorama musical angolano como integrante do grupo Warrant B, ao lado de Kenny Bus, Meyv e Papetchulo. Com o grupo gravou três obras discográficas: “Batalha”, em 1999, “Perfil Adequado”, 2003, e “Preço da fama”, em 2007. Em 2009, parte para uma carreira a solo, mudando radicalmente o estilo musical do rap para o Semba.

Entre as músicas que o músico regravou, de alguns artistas já falecidos, consta a intitulada “Moname” do Tony do Fumo, “Ngongo” dos Jovens do Prenda, “Pequenina” de Boano da Silva, “Ngi mona ndege” de Quim dos Santos, “Soba” de André Mingas, “Kalumba yó” de David Zé, “Mwimbo wami” de Elias dya Kimwezu, “Kandonga” dos Kiezos Zecax. O músico tem no mercado os discos “Grandes Mundos”, “Ezenu Um Tale”, “Kassembele.