O que é falar bem a Língua Portuguesa?

O que é falar bem a Língua Portuguesa?

Na véspera de uma festa dedicada à nossa amada, querida e grandiosa Língua Portuguesa, precisamos ainda de reflectir sobre algumas nuances que circundam o idioma oficial da CPLP. Os sábios dizem que devemos abraçar o conhecimento e seguir investigando para que a ignorância fuja de nós. Temas do género tornaram-se corriqueiros e já fomos parados na rua apenas para tecer uma opinião a respeito do quesito. Infelizmente, continua a ser um problema de muitos falantes do português angolano – e outros afins – pensar que O FALAR SUPOSTAMENTE BEM A LÍNGUA PORTUGUESA É SINÓNIMO DE APROXIMAR A NOSSA FONÉTICA À DOS EUROPEUS. Ouvir tais coisas é lamentável, porque alguns são, inclusive, pessoas com um intelecto de peso e, a estes, a balança da ignorância pesa mais, uma vez que se esquecem da existência daquilo a que a Linguística chama de “variações”, fenómenos esses que podem ocorrer num só registo linguístico ou em vários.

Destarte, o Dicionário Terminológico (s/d) define VARIAÇÃO como sendo as propriedades que as línguas têm de se diferenciarem em função da GEOGRAFIA, da SOCIEDADE e do TEMPO. Originando, deste modo, as suas variantes e as variedades linguísticas. Atestados esses conceitos, surgem, portanto, as seguintes variantes do mesmo registo linguístico, o português, no caso: 1° Variante europeia; 2° Variante americana; 3° Variantes africanas. Nesses grupos, há uma variante que serve como modelo em relação às outras. Falamos exactamente da variedade europeia, no caso a de LISBOA (cf. Dicionário Terminológico, s/d, p. 17). Podemos ainda dizer que, segundo este dicionário, uma normalização ‘linguística’ é um processo que consiste na selecção de uma variedade social e/ou geográfica, convertida em língua padrão, tornando-se, assim, num meio público de comunicação: a escola e os meios de comunicação passam a controlar a observância da sua gramática, da sua PRONÚNCIA e da sua ortografia.

Acrescenta, de igual modo, que a língua PADRÃO é uma variedade social de uma língua, falada e escrita, que foi legitimada historicamente enquanto meio de comunicação entre os falantes de uma comunidade linguística. É sinónimo de norma PADRÃO. Tendo em conta o que se descreveu acima, a pergunta que não quer calar-se é: SERÁ QUE SÓ SE FALA BEM A LÍNGUA PORTUGUESA EM PORTUGAL? Não, claramente. Segundo Bagno (Ed. 1999, p 23) “a ideia de que somente se fala bem o português é só em Portugal é uma bobagem, infelizmente transmitida de geração a geração”.

Ainda acrescenta, no mesmo livro, que “ fi ca implícita a ideia segundo a qual para considerar uma expressão legítima basta que ela seja usada por todos os portugueses como se eles ditassem a norma linguística válida para todos os povos que falam português “. Seguindo esse raciocínio, podemos inferir que se FALA BEM O PORTUGUÊS em todas as antigas colónias de Portugal, não só nas grandes metrópoles portuguesas. A diferença, que talvez muita gente se tenha confundido, reside na forma de articular os sons da própria língua; ou seja, a fonética dos lusitanos confunde muitos falantes africanos, ao ponto de se considerarem péssimos utentes da língua portuguesa, o que em nada tem que ver com o falar bem a língua em referência.

Com isso, queremos dizer que em Angola, tal como noutras ex-colónias portuguesa, existem, para além do português, outras línguas nativas. Ou seja, a língua portuguesa coabita com inúmeras outras línguas não enraizadas nas neolatinas, diferentemente da realidade portuguesa. Assim, podemos dizer que a maior parte dos falantes das antigas colónias portuguesa aprende o português já interferido, com várias transferências e interferências, e isso faz com que, ao aprender o português como língua segunda, tenham dificuldades de pronúncia devido aos seus aparelhos fonadores que, numa primeira fase, só se tinham habilitados e habituados com as línguas maternas deles, que não é o português, para alguns.

Com efeito, ao se expressarem em português, registam-se, na articulação de alguns sons, “entraves” fonéticos, o que não faz deles – falantes africanos de português – péssimos usuários da língua portuguesa. Ao se considerar que o bem falar em português só é feito em Portugal, estamos, segundo Bagno, diante de um mito que, há anos, já foi desmentido por este mesmo estudioso. Assim, falar bem a língua portuguesa não tem que ver com o uso da fonética europeia por parte dos falantes africanos; é, aliás, falar segundo ao que se estabeleceu como padrão na língua portuguesa. Pode-se afirmar, sem medo de errar, que um português nato de qualquer cidade lusitana também (mesmo com a fonética diferente da dos africanos) pode atropelar a gramática da língua. Portanto, tudo depende da competência que cada falante tiver em relação à norma-padrão, independentemente da geografia onde cada um se encontrar.

POR: Gabriel Chinanga