Julgamento dos supostos assassinos do comandante da Boa-Fé encrava no tribunal

Julgamento dos supostos assassinos do comandante da Boa-Fé encrava no tribunal

O Tribunal Municipal de Cacuaco adiou, pela segunda vez, o início do julgamento dos supostos marginais que assassinaram o comandante da esquadra da Boa-Fé, em Cacuaco. Entre as justificações constam o facto de os presos não estarem a ser identificados na cadeia e de que não há viatura para os levar ao tribunal. Os familiares acreditam na existência de uma “mão invisível” que não quer que se faça a justiça

Morto a tiro em Junho de 2020, por um grupo de supostos marginais, Faustino António Luamba, de 44 anos, então comandante da Polícia Nacional na esquadra da Boa-Fé, município de Cacuaco, deixou 27 filhos e nove viúvas. A primeira sessão de julgamento foi marcada para o dia 9 de Abril, no Tribunal Municipal de Cacuaco. Na altura, o julgamento dos quatro réus, que deveria ter início às 10h, até às 13 os detidos não se tinham feito presente na sala de audiência, pelo que foi adiado para o dia 14 de Maio. A família, que já achava estranho este adiamento, “engoliu a seco” e voltou a fazer-se presente no dia 14 de Maio, na última Sexta-feira. Eis que, para o espanto de todos, o julgamento foi novamente adiado, por ausência dos réus. Domingos António Luamba, irmão do falecido, diz que a família se encontra numa situação complicada, pois custa-lhes acreditar que  “até o bandido que rouba uma galinha tem direito à justiça e os que mataram um comandante não o têm”. O tempo de trabalho, bem como as funções desempenhadas pelo comandante, para o bem de todos, na sua opinião, não deviam ser colocados de parte.

É defensor da ideia de que, por tudo que Faustino Luamba fez pela nação, devia descansar em paz, e esta paz apenas será encontrada quando a justiça for feita, com os verdadeiros culpados pela sua morte responsabilizados criminalmente. “A justiça em Angola não pode ser apenas para os ricos. Este processo tem de ser mais aberto. Se na realidade há alguém a encobrir, nós queremos apenas a justiça”, disse ele, desconfiando de algo de errado que esteja a acontecer a favor da não realização do julgamento.

Invocados o desaparecimento dos réus e a falta de viatura

A desconfiança é também partilhada por Alfredo Pedro Kutuma, outro irmão da vítima, tendo avançado ainda que a família não vê outra saída senão denunciar nos meios de comunicação social estes constantes adiamentos do julgamento. Alfredo Kutuma acredita que estes adiamentos são uma maneira de acobertar a justiça, criar embaraço e evitar que se julguem os assassinos de seu irmão. A manifestação de descontentamento por parte da família do comandante foi apresentada depois de terem sido informados pelo advogado por eles constituído, Miguel dos Santos, sobre mais um adiamento da sessão de julgamento.

Em conversa com a imprensa, o advogado disse que o juiz o chamou para lhe informar a impossibilidade de o julgamento começar, porque, até às 13h daquele dia, os arguidos, mais uma vez, não se faziam presentes. “Ora se invoca, alegadamente, o facto de os presos não estarem a ser localizados no estabelecimento prisional, ora porque não há viatura para os levar ao tribunal. São argumentos que, a nós, não colhem, mas vamos aguardar”, disse. Reconheceu o desgaste por parte da família e que esta está com o sentimento de renegação de justiça, uma vez que não se justifica a marcação, por duas vezes, de um julgamento que não ocorre.

Quanto à possibilidade de os réus estarem no limite da prisão preventiva e serem postos em liberdade provisória, disse que pode haver, pelo que aproveitou a oportunidade de abordar este assunto com o meritíssimo e apresentar a preocupação de os familiares terem que lidar com esta situação. Isso poderá originar, segundo o causídico, uma situação de justiça por mãos próprias, coisa que não querem que aconteça, por não ser correcta. Os réus Pereira Benga “Percy”, de 32 anos; Jorge Saraiva, de 29 anos; Marcelo Almeida “Pausado”, de 28 anos e Benedito Nazário “Da Beleza”, de 24 anos estão a ser acusados da prática dos crimes de roubo concorrido com homicídio, porte ilegal de arma de fogo e consumo de estupefaciente. Durante o interrogatório negaram a autoria dos crimes.