Sembista defende inclusão dos músicos da velha-guarda nos eventos culturais alternativos

Sembista defende inclusão dos músicos da velha-guarda nos eventos culturais alternativos

O conceituado sembista angolano Manuel João Lourenço, conhecido artisticamente como Joé, defende a inclusão de artistas da velha-guarda em eventos culturais alternativos nesta fase de pandemia, pelo facto de muitos estarem inabilitados de viverem às custas da arte, tal como ocorria antigamente

Em entrevista concedida ao Jornal OPAÍS, o artista, que lançou o seu primeiro e, até ao momento, único álbum discográfico em 2007, assegurou que, por conta da pandemia e da crise financeira que o país vive, aliado ao facto de muitos não receberem quaisquer recompensas por via da União Nacional dos Artistas e Compositores Sociedade de Autores (UNAC-SA), têm passado por inúmeras dificuldades, relacionadas com as suas subsistências.

O músico referiu que outrora havia eventos que reuniam também músicos já consagrados, o que permitia que estes tivessem distintas fontes de renda pelo trabalho exercido em prol da cultura. “A pandemia, sem esquecer a crise, impediu que se realizassem vários concursos em que também podiam participar músicos já conceituados, sobretudo aqueles que não tivessem tanta notoriedade. Estou a falar, por exemplo, do concurso Canção da Cidade de Luanda e a Gala à Sexta-feira. Hoje só existe o Top dos Mais Queridos”, lamentou o cantor, que começou como homem dos batuques, no Carnaval de Luanda, ainda na era colonial. Manuel João Lourenço, ao longo do diálogo mantido com OPAÍS, afirmou que, noutras épocas, o Ministério da Cultura Turismo e Ambiente, assim como outras instituições realizavam, com elevada regularidade, espectáculos que preenchiam o programa de actividade de vários músicos.

“Antigamente, os consagrados apareciam, mas até a cultura tipo hoje mudou. Eu sou membro da UNAC, e todos sabem que havia uma pauta cultural no ministério. Anteriormente, tinha uma vitrina onde apareciam os locais em que os músicos iam actuar, em centros recreativos e até nas embaixadas, não nos faltava dinheiro, pois havia mais eventos”, explicou.

Soluções para o assunto

Joé, percursor do estilo musical semba, disse que, nos dias de hoje, muitos se encontram em situação financeira delicada, pelo que propõe que os responsáveis tratem com máxima celeridade a situação dos inscritos na UNACSA, junto da segurança social.

“A segurança social não está a funcionar porque, depois do mandato de Teta Lando, que revolucionou a UNAC, ao formalizar o cadastramento dos artistas daquele tempo, que estavam inscritos e tinham até 44 anos de idade, mas eu, na altura, só tinha 42, então fiquei de lado até hoje. Portanto, até ao momento, muitos não beneficiam disto porque se precisa organizar este problema da UNAC, nesta actual gestão de Zeca Moreno e a segurança social”, sugeriu o cantor.

Novos projectos

O artista assegurou que, no exacto momento, já tem tudo preparado para o novo trabalho discográfico que não chega aos ouvidos dos amantes da sua música por falta de patrocínio. Todavia, está a promover o seu mais recente tema “Ngongo”, que quer dizer sofrimento, na língua Kimbundo para a portuguesa, canção criada no âmbito da pandemia e da crise.

Percurso do músico

Joé, que também responde pelo nome Manuel João Lourenço, nasceu em Luanda, no Rangel, em 1962, e cresceu no Prenda. Foi membro do conjunto Azes do Prenda, em 1981. Foi co-fundador do grupo Tetembua, em 2003, e em 2004 fez dupla com o músico Mig. Lançou o seu álbum em 2007, intitulado “Palanhi” e mais tarde, em 2009, passou pela Banda Zimbo, como vocalista. Foi vencedor do concurso musical Canção Cidade de Luanda, em 2004, e saiu em segundo lugar na Gala à Sexta- feira, no mesmo ano.

Valdimiro Graciano