Missão de paz africana irrita Ucrânia e fracassa

Missão de paz africana irrita Ucrânia e fracassa

A tentativa dos líderes africanos de mediar a guerra entre a Rússia e a Ucrânia não teve resultados visíveis além de ter irritado os ucranianos.

A delegação fala em sabotagem. Terá a iniciativa de paz fracassado?

A missão de paz africana chefiada pelo presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, terminou no Sábado (17.06) em São Petersburgo, depois de ter passado na véspera em Kiev, sem outros resultados visíveis além de ter irritado os ucranianos.

Na sua conferência de imprensa conjunta com os líderes africanos em Kiev, na Sexta-feira, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, deixou claro que a aspiração da missão de facilitar as negociações sem exigir a retirada da Rússia estava fadada ao fracasso.

“Hoje, durante a nossa reunião, mais uma vez deixei claro que permitir qualquer negociação com a Rússia agora, quando os ocupantes estão no nosso território, significa congelar a guerra, congelar a dor e o sofrimento”, declarou Zelensky.

O presidente ucraniano assistiu a algumas das intervenções de dirigentes africanos com um semblante impaciente e por vezes aborrecido, chegando inclusive a repreendê-los pela linguagem com que se referiram à guerra. “Meus colegas seguem constantemente chamando esta guerra de ‘crise’.

E eles têm o direito de fazê-lo, mas isso significa que avaliamos a situação de maneira diferente.

Não é uma crise e não é uma ameaça, é uma guerra cujas consequências são uma série de grandes crises”, salientou.

Pouco antes, do seu púlpito ao lado do de Zelensky, Ramaphosa havia pedido “uma desescalada” das “ofensivas de ambos os lados”.

“Cultivar a paz”

Ramaphosa também se referiu aos mísseis lançados pela Rússia contra Kiev logo após sua chegada à cidade.

“Esse tipo de actividade não é bom para cultivar a paz”, declarou, sem mencionar a responsabilidade russa pelo ataque. Seu porta-voz, Vincent Magwenya, já havia provocado indignação dos ucranianos ao comentar no Twitter sobre as explosões dos mísseis:

“Que estranho, não ouvimos sirenes ou explosões.

A missão de paz africana continua de acordo com o plano.” Magwenya publicou esta mensagem depois de a agência “Reuters” ter testemunhado a delegação de líderes africanos descer para o abrigo do seu hotel, em Kiev, durante o ataque.

Quando questionado por alguns usuários do Twitter a respeito, o porta-voz de Ramaphosa explicou que não estava com eles no momento, mas “no 11º andar do hotel observando as pessoas caminhando tranquilamente pela rua”.

Embora seja possível, dependendo da localização do hotel, que Magwenya não tenha ouvido sirenes ou explosões, o tom céptico e desdenhoso dos seus tweets parecia lançar dúvidas sobre a autenticidade de um ataque em que várias pessoas ficaram feridas.

Pela sua atitude, o jornal ucraniano de língua inglesa “Kyiv Post” o chamou numa manchete de “O maior mentiroso do mundo”.

“Sabotar a iniciativa de paz”

Os problemas da missão africana de paz, no entanto, começaram antes da sua chegada a Kiev, quando os jornalistas sul-africanos e os 120 agentes de segurança mobilizados por Ramaphosa para a visita não conseguiram desembarcar do seu avião ao aterrar em Varsóvia.

A delegação oficial sul-africana acusou, inicialmente, a Polónia de comportamento racista, querendo sabotar a sua iniciativa de paz e “pondo em perigo a vida” de Ramaphosa, que tinha chegado àquele país noutro avião e iniciou a sua viagem de comboio para Kiev sem esperar por aqueles que deveriam protegê-lo.

O governo polaco, no entanto, explicou que os agentes sulafricanos não tinham as licenças necessárias para as armas que portavam.

O avião sul-africano em questão também teve de alterar a sua rota, porque não tinha licenças para entrar no espaço aéreo da Itália e da Hungria, segundo revelaram jornalistas sul-africanos.

Depois de mais de 24 horas de espera no interior do avião, os jornalistas e os demais passageiros conseguiram, finalmente, desembarcar e descansar num hotel, antes de voltarem ao avião e regressarem à África do Sul sem terem chegado a Kiev a tempo nem acompanhado Ramaphosa a São Petersburgo devido a problemas administrativos.

Segundo alguns observadores, Ramaphosa sacou da manga a sua missão de mediação para melhorar a sua imagem, depois que os Estados Unidos acusaram a África do Sul no último mês de Maio de enviar, secretamente, armas para a Rússia.