A doce ilusão do conhecimento

A doce ilusão do conhecimento

O tempo não se cansa de dar razão a velha máxima de Nassim Nicholas Taleb, segundo a qual, as pessoas com conhecimento médio no que se refere à probabilidades tendem a conduzir aos piores resultados em comparação com os ignorantes.

Reformulando, a ilusão de conhecimento leva aos piores desastres mais do que a ignorância.

Associo a ilusão de conhecimento ao neologismo Individuos-deum-olho-só. Por ironia às minhas credenciais académicas e formação, o facto é que nem sempre me ocorre a palavra exacta, aquela que diz com precisão aquilo que quero dizer.

Para fugir a minha inabilidade de precisão ou presunção lexical, vou-me valer de subterfúgios de descrições e dos circunlóquios como alternativas para dizer o que quero dizer.

Devido à extensão e complexidade do problema, deixo de fora quaisquer preciosismos e palavras sufismadas, para que até o leitor menos culto me perceba, embora alguns me não creiam, efectivamente.

Há, indiscutivelmente, um crescimento aritmético de indivíduos ditos cultos, que se vão proliferando por tudo quanto é canto, supostamente em nome da ciência, arrogam-se o direito de deliberar até sobre matérias fora de sua jurisdição.

Tais, ao longo da presente comunicação serão tratados indivíduos-de-um-olho-só, aliás, aqui assenta minha falta de perspicácia lexical, tal como já aludi, não se deve à falta de fluência na língua portuguesa, o que seria um paradoxo, se tratando de quem se trata, eu.

Geralmente os vocábulos são formados para designar novas realidades na língua e é em função desta nova realidade que trago este vocábulo, indivíduos-de-um-só.

A propagação viral destes é preocupante, na medida em que atenta contra a saúde mental das pessoas menos doutas, cegas, sem pensamento próprio fundamentado e solidificado mediante uma crença racional plausível.

Tal como não existe rei sem súbditos, não existiriam os indivíduos-de-umolho-só sem os cegos, porquanto é devido aos últimos que existem os primeiros.

Uma cidade como luanda, cheia de intelectuais iluminados, infelizmente foi reduzida a nada, infestada de indivíduos-deum-olho-só que se sobrepuseram em todos círculos.

O problema estende-se pelas quatro paredes do país, na ânsia de tê-los e vê-los mais próximos, talvez aproveitar o ensejo para as selfies desmedidas, num acto solene de sessões fotográficas escondidas sob pretexto de workshops, café literários e jornadas científicas, estes Indivíduos-de-um-olho-só são tirados da metrópole, a convite de pequenas associações culturais e académicas, idolatrados, endeusados e tratados com toda pompa possível, como se de estrelas de hollywoods se tratassem, a fim de intermediarem o conhecimento e a ignorância, pasmem-se, infelizmente só destilam a segunda.

E sobre a metrópole há muito que se diga: os ditos académicos recrutados [nas redes sociais] num processo de seleção bastante improdutivo e questionável, puramente fora dos parâmetros normais e canónicos.

Aproveitam-se da febre dos networking para mendigarem laços e lhes acomodem em residência dos meios de comunicação social (rádio e televisão) a fim de destilarem suas pobres visões sobre os mais variados assuntos sociais, económicos, políticos, linguísticos, culturais… Eis o ponto nevrálgico da questão, comentam sobre tudo e mais alguma coisa e a massa de cegos tornaram essa casta numa espécie de oráculo de Delfos, privilégio que lhes dá garantia de deliberar sobre tudo.

Trago apenas um olhar puramente lógico, quase matemático, em que dois mais dois têm de ser quatro sem variações, sem nuanças, sem graus, de modo que tudo seja liso, aparado, para uma inversão do olhar e que se mude o paradigma das coisas.

Porque a forma como pessoas tão fazias foram colocadas no podium, enoja-me e soa-me injusto, desonesto.

 

Por: JOAQUIM N´JUNGO