Carta do leitor: Será que uns são mais refugiados do que os outros?

Carta do leitor: Será que uns são mais refugiados do que os outros?

Estimado director do Jornal OPAíS

Quase se poderia dizer que desde sempre se ouvem péssimas notícias acerca do que se passa na vizinharepublica democrática do Congo, onde, de forma recorrente os múltiplos conflitos armados que eclodem entre diferentes facções continuam a ter como principais vítimas as populações indefesas.

Até parece que do Congo democrático estão sempre a fugir ou a chegar das redondezas pessoas feridas, mulheres com parte da família sem saber o destino do parceiro e restantes filhos, assim como menores sem companhia. da pouca informação que nos chega parece denotar-se que a cada dia o número cresce.

A verdade é que estamos em face de um autêntico e interminável drama humanitário.

Ora, esta situação leva-me a lembrar o que ocorre no mediterrâneo e outros pontos de acesso à Europa onde o desastre dos refugiados parece ter intensa transmissão directa nos Mídia, em contraste com o que acontece aqui. Há mesmo ONG’s que se fundaram porque há a crise dos migrantes na Europa.

Pergunto: por quê os que migram para a Europa podem ter este “privilégio” e os que fazem o mesmo movimento pelas mesmas razões de sobrevivência aqui bem pertinho de nós não despertam nenhum interesse mediático! Será que uns são mais refugiados do que os outros? Mais estranho ainda é o silêncio tumular da nossa sociedade civil.

Para pequenos factos somos capazes de mobilizar mais vozes que infelizmente não aparecem nestas alturas em que a verdadeira solidariedade devia vir ao de cima.

Quase todos nós permanecemos indiferentes perante o dilema dos nossos irmãos congoleses. como se isso nunca tivesse ocorrido em nossas vida, quando ainda ontem mendigávamos por um lugar seguro nos países vizinhos, vítimas do nosso conflito armado.

É deveras deprimente ver um povo que não se mobiliza para grandes causas como esta em que nossos semelhantes sofrem na pele as mesmas amarguras que num passado recente era o nosso dia-a-dia. Chega de sonambulismo é preciso acção senhor director.

Fernando Borges Quiangala

Calemba II Luanda