O truque falhado ou o declínio do reino?

O truque falhado ou o declínio do reino?

Três longos meses eram passados desde a sua entronização, quando o novo Rei, ciente do escárnio e das falácias, tão rudes e ruidosas, de que era alvo, decide, não sei por conselho de quem, dar provas de suas valências. Ousou mesmo enviar mensageiros por todo lado a convidar as mais altas figuras, pessoas muito bem-nascidas e toda a sorte de gente, desde campónios a citadinos: “venha ver com os seus próprios olhos o rei a matar um bói com o dedo”, lia-se na última linha de cada carta, que vinha assinada pelo próprio. Advinhava-se um evento épico. Chegado o dia, antes mesmo da hora acordada, já centenas de humanos se tinham apressado a chegar; queriam todos ver de perto o que ia acontecer.

Instantes mais tarde, lá chegava o tão anunciado homem. Para surpresa e decepção da maioria, aparecia um jovem de pouca idade e uma altura muito escassa, arrastando sofridamente uma pesada túnica vermelha. A sua aparência, de tão fresca e risonha, despertou milhares de protestos: “Ora! Venham cá ver isto, ó ancestrais!”, Exclamou uma mulher idosa. “Onde viemos parar, Santa Trindade! “ disse um outro, quase chorando. Depois de longos e enfadonhos discursos apresentados por altas entidades governamentais e tradicionais, eis que o cerimonialista soergue a voz e, em umbundu, disse: “votoki vosi. Epalanga oponda ongombe l’olumwine!”

Tal anúncio gerou uma onda de espanto e temor na multidão: “O quê? Vai matar o bói com o dedo?” questionavam os convivas. A curiosidade e o entusiasmo apossaram-se de todos, com excepção do velho J, que via em tudo um certo quê de abominável. Levantou-se o Rei, com muita gravidade, marcou uns três ou quatro passos longos e paternais, dirigiu o olhar ao animal, que estava indiferente a tudo. O que veio a acontecer ultrapassava as expectativas. O nosso herói apontou o dedo indicador ao animal. Fez-se um silêncio tumular. Ficou naquela posição por uns bons bocados, situação que fez o velho J desatar aos risos.

É que o animal não morria. Nem se mexia. O Rei fez questão de reforçar com o indicador de outra mão, totalizando dois dedos. Nada. Ao ver que tal também não resultava, caiu numa angústia soturna. Já ia desatar a chorar, quando o seu ajudante, percebendo-lhe os nervos, jogou-lhe acertadamente um machado. O maior agarrou-o afetuosamente. Num relance, o bói já era sem vida e o machado sumira dos olhos de todos. Os mais desatentos aplaudiam fervorosamente. O velho J, que já não cabia de si de tanto desgosto, depois de reprovar em kimbundu, tartamudeou: “esse é um oportunista consumado que o acaso fez Rei. Bendita providência!, nem os poderes o obedecem!”. Algumas pessoas mais bem-ajuizadas viam em tudo aquilo um sinal dos antepassados anunciando o declínio do reino Mbalundu, que já teve os seus séculos de glória. “Já se não fazem bons reis como antigamente. E se mais reinos houvera…” reticenciou o bom velho.

POR: Hm  Elizeto