Televisão e o poder suave na construção da identidade (I)

Televisão e o poder suave na construção da identidade (I)

Num contexto marcado pelos efeitos psico-emocionais, económicos e sociais provocados pela pandemia da Covid-19, a comunicação social tem sido elemento fundamental na manutenção do nível possível de estabilidade das mais diversas sociedades. As lives com músicos e bandas nacionais exibidas pela TPA, que mobilizam e animam as famílias de regiões recôndidas do país através do accionamento do sentimento de pertença a uma “Comunidade Imaginada” ilustram bem o poder e a empatia do audiovisual. A televisão constitui, assim, um meio poderoso na promoção de elementos da cultura e da identidade nacionais, contribuindo para a construção de redes de empatia com os mais deversificados públicos que compõem a sua audiência. Para o efeito, é imprescindível que se identifique com clareza o interesse estratégico, a manifestação da vontade e poder para se exercer a devida hegemonia.

O que é o poder? Segundo Manuel Castells ( 2009, p.57), “O poder é a capacidade relacional que permite a um actor social influenciar assimetricamente as decisões de outro(s) actor(es) social(is) de formas que favoreçam a vontade e os interesses do actor que detém o poder. O poder pode ser exercido por meio da coerção (ou a possibilidade de coerção) e/ou pela construçao de significado com base em discursos por meio dos quais os actores sociais orientam suas acções”. Quer dizer, poder, definido como a capaidade de fazer com que o adversário faça a sua vontade, pode ser exercido por intermédio da componente militar (Hard Power) e do Soft power(poder suave). Enquanto o primeiro se refere ao uso de material bélico pelas Forças Armadas e demais órgãos de Segurança, já o soft power remete para o recurso aos elementos da cultura e dos valores da identidade nacional. É aqui onde reside a importância estratégica dos meios de comunicação social, em geral, e da televisão, em particular.

A televisão, devido as suas características técnicas, destaca-se como meio adequado na promoção e aprofundamento de valores da identidade nacional (cultura, linguagem, gastronomia, religião, artes etc), na dinamização do debate democrático e no atendimento de necessidades de informação e entretenimento através de canais direccionados para as populações residentes no estrangeiro e nos espaços geográficos de interesse estratégico. (LOUREIRO, p.298). O termo Soft Power surgiu depois da queda do Muro de Berlim e do fim da guerra fria que opôs durante 40 anos as potências ocidentais e os países do Sistema Socialista Mundial encabeçada pela União das Repúblicas Soviéticas. Em 1990, professor americano de Harvard Joseph Nye através do seu livro intitulado Bound to lead: thechan gingnature of American Power, tendo sublinhado a importância do movimento de actores não-estatais no cenário internacional com destaque para as organizações não-governamentais na abordagem de temas transversais como ambiente, combate à pobreza, endemias etc. Assim, Soft Power, segundo a definição do autor:

“É a habilidade de conseguir o que se quer pela atracção e não pela coerção ou por pagamentos. Surge da atractividade de um país por meio da sua cultura, de sua política e de seus ideais. Quando se consegue que os outros admirem seus ideais e queiram o que você quer, não é preciso políticas de incentivo e sanções para movê-los na sua direcção. A sedução é sempre mais eficaz que a coerção, e muitos dos valores como a democracia, direitos humanos e oportunidades individuais são profundamente sedutores (NyeapudBallerini, p.17). Ele vem de três fontes principais: uma é a cultura de um país – no caso da América, isso varia de Harvard a Hollywood. Em segundo, os valores políticos podem ser muito atractivos para outros países, da democracia à liberdade de expressão e oportunidade. E a terceira é a legitimidade da política externa de um país. (Continua na próxima edição)

POR: Augusto Alfredo