Apreensão de viaturas da ASCOFA avaliadas em mais de 660 mil dólares

Apreensão de viaturas da ASCOFA avaliadas em mais de 660 mil dólares

O Serviço Nacional de Recuperação de Activos (SENRA), no documento publicado recentemente, alistou um total de 57 viaturas apre- endidas, maior parte top de gama, supostamente desviadas pela antiga gestão da ASCOFA, que estão avaliadas num total de 669.952,68 de dólares norte-americanos. A actual gestão fala num património muito mais alto desviado para interesses pessoais, que envolve, para além de viaturas, residências, terrenos e, inclusive, comida que seriam para aqueles que lutaram pela independência deste país

Quem for visitar a sede nacional da Associação de Apoio aos Antigos Combatentes das Ex-FAPLA (AS- COFA), no Rangel, imediações do Triângulo dos Congoleses, terá o reflexo mais puro do cenário de abandono de um ente que doou a sua vida para a justa causa do povo angolano: a independência. O escritório, suportado por mais velhos que têm muita história para contar, mas que vivem “sequestrados” pela frustração da faltadevalorização e esquecimento dos dirigentes, é o exemplo perfeito de antiguidade.

Na porta está um ancião, que aparenta ter perto dos 70 anos, a manter a guarda do espaço, enquanto uma jovem que garante a higiene do local usa dois baldes, no corredor, para amparar a água da infiltração que vem do apartamento de cima. No hall de entrada do escritório, uma “pilha” de documentos de viúvas, órfãos e antigos combatentes de todo o país está exposta à esquerda de quem entra, como se de uma obra de arte empurrada se tratasse.

Como é possível uma associação que terá recebido mais de 50 viaturas top de gama ainda tenha a sede nacional a cheirar bolor, por conta da humidade e infiltrações; perigo por conta da instalação eléctrica externa e cabos à vista. E o mais grave é que não tem sequer condições de comprar um caixão para o enterro condigno dos seus associados que perderam a vida recentemente? A resposta é simples: durante muito tempo, a ASCOFA serviu como fonte de enriquecimento de pessoas que nada tinham a ver com os antigos combatentes.

O uso indevido dos bens ou a gestão danosa terá contribuído para que o Serviço Nacional de Recuperação de Activos aprendesse um total de 57 viaturas, muitas das quais top de gama, doadas à ASCOFA, que estavam a ser utilizadas para interesses pessoais Foram recuperadas apenas 23 viaturas São quase 30 viaturas Toyota Land Cruiser, quatro Lexus LX570, Ford F150, Infiniti, Nissan Patrol, Ranger Rover, entre outras, que nada tinham a ver com o objecto da associação, muito menos beneficiavam os seus associados.

De acordo com o actual presidente da ASCOFA, Caetano António Marcolino, em entrevista exclusiva ao jornal OPAÍS, o caso evolui para julgamento, em que foi acusado o seu antecessor, e foram recuperadas das 57 apenas 23 viaturas. O acórdão, ditado em Abril do corrente ano, condenou António Samora, antigo presidente da ASCOFA, a uma pena suspensa de três anos de prisão e ao pagamen- to de 200 milhões de Kwanzas de indeminização àquela associação.

“Há um inventário de 57 viaturas, mas ele tinha em posse 40. Deste número, foram recuperadas 23, as restantes ainda se encontram em mãos de pessoas estranhas. O processo não foi fechado e continua, segundo o tribunal, até a total recuperação dos bens”, disse, tendo reconhecido ser normal que não sejam recuperadas todas as viaturas, porque dizem que algumas foram vendidas nas fronteiras e outras estão avariadas. As viaturas, disse o entrevistado, foram compradas com um apoio dado pela Casa Militar do Presidente da República, no valor de cinco milhões de dólares, pelo Presidente cessante.

Com este valor eram para ser adquiridas 67 viaturas, mas já a partir, da concessionária houve uma subtracção e só foram entregues 57. O apoio englobava viaturas para apoiar o corpo directivo e as restantes seriam viaturas para apoiar os projectos da ASCOFA, mas propriamente as cooperativas. O que quer dizer que deviam ser adquiridas viaturas adaptadas para o campo e não as “top de gama” para agradar ou- tras pessoas, segundo apurámos.

Embora o Serviço Nacional de Recuperação de Activos traga aqui dados por muitos desconhecidos, Caetano Marcolino fez questão de enfactizar que este processo não fala só de viaturas, pois terá encontrado os cofres da associação vazios. A ASCOFA congrega mais de 80 mil associados, dentre ex-militares, órfãos e viúvas, sendo que os associados na actual gestão contribuem com 100 kz de quotas. O valor mensal não tem sido pago por muitos associados, uma vez que só se preocupam em pagar de dois em dois anos, quando o cartão de membro perde a validade.

Então, é muito difícil depender só do dinheiro da quota. Antes recebiam três milhões e duzentos, do Ministério dos Antigos Combatentes, por mês, que serviriam para sustentar a associação. “Não se pagava ninguém e o funcionário que na folha de salário ganhava 100 mil, recebia 10 mil kz”, denunciou.

“Tenho dois corpos de ex-combatentes na morgue e sem dinheiro para comprar caixão

A ASCOFA tinha muitos apoios no passado. Inclusive,o antigo Presidente da República cessante assinou um despacho para que o ministro dos Antigos Combatentes concedesse a logística de seis toneladas de bens alimentares para os ex-militares, mas, segundo Caetano Marcolino, estes não viram nada. “Como é que alguém faz isso com os seus companheiros de trincheira? Recebe seis toneladas e não dá nada, ao ponto destes morrerem aqui na porta da ASCOFA. Neste momento, senhor jornalista, eu tenho dois corpos na morgue de ex-combatentes e estou sem caixão para lhes enterrar”, lamentou.

Por isso, mais do que reclamar de carros, perder tempo a guerrear, mesmo depois de o processo ter sido julgado e condenado, Caetano Marcolino espera que as pessoas lhe tragam também ideias para tirar os ex-combatentes da mendicidade e dar dignidade a estes cidadãos. Pensar que a ASCOFA tem dinheiro é uma miragem, segundo os responsáveis, porque até dívida com os advogados que defenderam o caso de desvio de fundos no tribunal tem. Como se não bastasse, o aporte financeiro de três milhões e duzentos que recebia a anterior direcção do ministério de tutela já não é atribuído.

Em 2016, junto com o BPC e o ministério de tutela, receberam 89 residências, mas na gestão do antigo director terão ido parar em mãos de pessoas incertas. Deste processo, apenas conseguiram recuperar 72 casas, porque a empresa que concedeu o crédito precisa recuperar o valor investido pela Recredit-BPC. “Esses problemas eu já encontrei. Eu sou o novo presidente. Entretanto, tudo farei para voltarmos a recuperar esta parceria com o Estado, no sentido de dar dignidade aos ex-combatentes”, disse.

A recuperação a que refere envolve também o atraso financeiro que o ministério de tutela tem com aquela associação, no que diz respeito à cabimentação mensal que brevemente receberão. Os associados também já estão a ser assistidos médica e medicamentosamente no Hospital Militar. Está-se igualmente a trabalhar na recuperação de dados daqueles que até ao momento não foram desmobilizados e daqueles que não estão inseridos na Caixa de Segurança Social, assim como na recuperação das 30 cooperativas que já receberam apoios do Banco de Desenvolvimento de Angola e do Presidente da República.