Falta de vias de acesso aumenta a criminalidade no bairro da Caluva

Falta de vias de acesso aumenta a criminalidade no bairro da Caluva

As condições em que vivem os 74.440 habitantes da Caluva, uma parcela do território do Lubango, faz com que estes moradores acreditem que estão em estado de abandono por parte das autoridades administrativas. A falta de vias de acesso, iluminação pública, entre outros problemas, aumentaram a criminalidade na zona

Caluva é uma zona do bairro Bula Matady, que fica no extremo norte da cidade do Lubango, capital da província da Huíla. Existe desde os anos 70, sendo que os primeiros moradores são originários de uma aldeia denominada Caluva, no município de Caconda.

A falta de água canalizada, as constantes falhas de energia eléctrica, iluminação pública, saneamento básico e a inexistência de vias de acesso fazem da Caluva um subúrbio com graves casos de criminalidade. Entre as diversas preocupações apresentadas pelos moradores da zona da Caluva, o destaque recai para o péssimo estado das picadas que servem de vias de comunicação entre a zona e o resto da cidade do Lubango.

De acordo com alguns moradores, esta realidade tem feito da Caluva o epicentro da criminalidade no município do Lubango, porque tem dificultado a intervenção da Polícia Nacional quando esta é chamada a intervir numa situação.

Miguel António, de 47 anos de idade, defende a requalificação do bairro para que sejam abertas as vias de comunicação e facilitar a entrada de viaturas, não só da Polícia, como também dos próprios populares.

“A nossa preocupação com a segurança pública não está mais em olhar para os níveis de delinquência que existe no bairro, temos de deixar tudo nas mãos de Deus que nos protege.

Ao Governo, queremos pedir que preste maior atenção para este bairro trazendo mais serviços”, disse. O interlocutor de OPAÍS reconhece alguns passos dados pelo Governo que, no seu entender, ainda são tímidos, como é o caso da construção do hospital municipal nas cercanias do bairro da Caluva, o que fez com que fosse aberto um furo para o abastecimento de água às populações.

Entretanto, diz não ser o suficiente porque tem pessoas que vivem há muitos quilómetros do único furo de água, e estas famílias ainda consomem água das cacimbas – o que tem estado a provocar muitas doenças, particularmente às crianças menores de cinco anos de idade.

Circular à noite tornou-se difícil

A distância do furo de água é reclamada por outra moradora, Emília Miguel, que tem sentido isso, por esta razão pede que façam mais furos para abastecer o maior número de moradores.

Por outro lado, a entrevista disse que a segurança é ainda deficitária no seu bairro, sobretudo no período nocturno, o que tem criado no seio dos moradores muito medo.

“Tem muitos bandidos, mas nem todos eles são residentes deste bairro. Como estamos no meio de dois bairros, muitos bandidos vêm doutros bairros para praticarem as suas acções aqui.

À noite tem sido difícil sair da paragem para casa por falta de iluminação pública, muitas vezes os bandidos seguem-nos e temos mesmo de correr para escapar deles”, explicou.

Também é de opinião que o Governo Provincial da Huíla requalifique o bairro todo, para garantir maior segurança aos habitantes e presença constante da Polícia.

Ponte é o local predileto dos assaltantes de motorizadas A falta de acesso para ligar a zona da Caluva aos bairros do Nambambe e Tchavola fez com que os moradores encontrassem alternativas para garantir a comunicação entres os três bairros, separados pelo rio Nambambe.

Sobre este rio, os moradores construíram com material rudimentar (carris e cimento) uma ponte a qual deram o nome de ‘ponte de ferro’. Os jovens que fazem o trabalho de moto-táxi dizem que a referida ponte é escolhida pelos amigos do alheio como o local perfeito para os roubos de motorizada.

Mateus Tchimbiambiulo, de 39 anos de idade, é motoqueiro no bairro Nambambe, trabalha há três anos e já perdeu três motorizadas em igual número de vezes que foi assaltado.

“Eles ficam na ponte de ferro a partir das 18 horas, quando já não há movimento de pessoas, amarram uma corda entre as duas barreiras de segurança colocadas na ponte, para o motoqueiro cair e ser surpreendido pelos marginais”, afirmou.

Por seu lado, João Kanduco, de 24 anos de idade, afirma ser o mais sortudo do grupo, pelo facto de nunca ter perdido uma motorizada, também porque não usa qualquer rota. João não aceita ir ao Hospital Olgas Chaves passando pela zona da Caluva. Prefere dar volta.

Idosa troca cadeira de rodas por carro-demão por falta de acesso

Mariana Tchilombo, 56 anos de idade, é natural do município de Caconda. Mãe de um filho, nasceu sem o movimento dos membros inferiores. Como se não bastasse ter a locomoção limitada, por conta do conflito armado perdeu o seu esposo e outros familiares.

Por esta razão, ela depende de doações de pessoas de boa vontade para a sua sobrevivência. E foi das mãos de uma organização religiosa que Mariana Tchilombo ganhou uma cadeira de roda. Como nem sempre aparecem tais pessoas, a anciã vive de esmolas na porta do Hospital Olga Chaves.

No entanto, a falta de acesso à sua residência obrigou a anciã, que só se comunica na língua nacional Umbundo, a trocar
a cadeira de rodas pelo carrinhode-mão que seu filho usa no trabalho de bagageiro nas moagens do Bairro Bula Matady.

TChilombo pede que se faça pelo menos a abertura de uma picada que possa facilitar a sua circulação na cadeira de roda, tendo realçado que tem sido fatigante sobretudo para o seu filho.

“Mayombola: a parada das Pablo Escobar”

Entre os focos de vendas existentes nos arredores do ex-mercado do João de Almeida, o destaque recai para a famosa Mayombola, um local constituído por pouco mais de meia dúzia de barracas de chapas de zinco, onde se vende bebidas caseiras fermentadas, e alguns entorpecentes, com realce para a canábis (vulgo liamba).

O negócio é detido unicamente por mulheres, o que fez com que o mercado da Mayombola fosse baptizado pelos moradores da Caluva como “a parada das Pablo Escobar”, uma vez que são as mulheres que lideraram o negócio da liamba. “As Pablo Escobar não vendem a qualquer pessoa.

Elas conhecem os seus clientes, por isso quem quiser comprar e não for daqui ainda é capaz de levar surra, porque pensam que é bófia”, disse um jovem que não quis ser identificado.

Sobre o envolvimento de mulheres na venda de liamba, Félix Tchongolola, soba do bairro da Mitcha, que vive na Caluva, confirmou esta informação.

A autoridade tradicional revelou que existem elementos que vendem, estão identificados. Apesar de não os poder indicar, salientou que eles estão a destruir o jovens do bairro.

O Soba Tchongolola, que também é naturopata, revelou que outra preocupação está no facto de existirem jovens que descobriram uma outra droga, que é extraída da raiz do pé da massambala, cujo efeito chega a ser maior que o da canábis.

Por isso, defende a intervenção da Polícia no encerramento da Mayombola.

Aprender uma profissão para escapar da delinquência

J ustino Cláudio, 20 anos de idade, é técnico médio de Ciências Físicas e Biológicas pela Escola Secundaria do Lubango, desde muito cedo começou a trabalhar na oficina de seu pai, onde aprendeu a profissão de estofador para ocupar os seus tempos livres.

O jovem, que sonha ser um engenheiro de construção civil, disse ter encontrado na profissão um caminho para escapar da delinquência que abraça grande parte dos jovens do bairro da Caluva.

“Aprendi a fazer cadeirões, camas e armário com o meu pai. Cresci aqui e limito-me a ter poucos amigos. Por isso, prefiro passar todo o dia na oficina do meu pai.

Tentei entrar no Instituto Politécnico da Arimba, mas não consegui. Vou voltar a tentar no próximo ano lectivo”, conta. Por outro lado, a nossa fonte informou que está disposto a ensinar outros jovens do seu bairro para que possam sair do caminho do mal.

“Nós estamos dispostos a ensinar a profissão aos outros miúdos que queiram, porque o mais importante é ter uma profissão”, declarou.

Campeão de MMA cria academia para salvar jovens da criminalidade

A zona da Caluva não é apenas de delinquentes, nesta zona encontram-se vários talentos, desde académicos, músicos e até praticantes de artes marciais. Durante a nossa reportagem, encontramos Martinho Salvador dos Santos Makuva, o mestre Libra.

O jovem de 30 anos de idade é natural e residente da zona da Caluva, participou de diversas competições de Artes Marciais Mistas (MMA), sendo um mundial na Sérvia e um africano decorrido no ano passado, na Namíbia, onde conquistou o título de campeão africano da modalidade na categoria dos 120 kg. Com o que se diz da zona em que vive, Mestre Libra decidiu criar uma academia para ensinar artes marciais aos jovens da Caluva.

No entanto, as condições adversas para a prática destas artes tornaram-se no adversárias da iniciativa. “A nível da Federação Angolana de Artes Mistas existe um projecto denominado Crime Zero e sou o embaixador neste nosso bairro. Por isso, criei uma academia denominada FH (Força do Homem).

No entanto, não há condições para isso, mas ainda sim damos o melhor de nós para ocupar o tempo dos jovens, porque o consumo de drogas que desemboca em actos de delinquência resulta do excesso de tempo livre dos jovens” explicou.

Acrescentou que a falta de espaços de lazer, desportivo e cultural tem estado a contribuir para o crescimento da criminalidade na Caluva, o que faz dela uma zona esquecida.

“Nós tínhamos um campo, infelizmente não existe mais, foi encerrado pela administração sem qualquer explicação para os jovens.

Se na verdade querem combater a criminalidade neste bairro, é preciso prestar mais atenção aos jovens com a construção de campos e recintos desportivos”, sustentou.

 

Por: João Katombela, na Huíla