Professor M.T transmite a futuras gerações que deficiência física não é limitação

Professor M.T transmite a futuras gerações que deficiência física não é limitação

Apesar da sua deficiência, que lhe dificulta a locomoção, agravada por não possuir uma cadeira-de-rodas, todos os dias normais de trabalho António Pedro, conhecido, na rua Eliseu Alves, zona da Marconi (Cazenga-Luanda), por Professor M.T, dedica-se a leccionar classes da 1ª a 4ª para crianças teoricamente consideradas fora do sistema de ensino

As sessões de aula diárias acontecem num compartimento aberto de cerca de quatro metros de comprimento por três de largura, limitados por barrotes de madeira acastanhados, que asseguram algumas chapas de zinco insuficientes para cobrir sequer metade da sala adaptada.

A turma do primeiro turno matutino da conhecida «Escola Primária Cantinho da Sabedoria» é composta por mais de 30 crianças (alunos) com idades compreendidas entre os cinco e 13 anos, já que a mesma alberga, ao mesmo tempo, estudantes da 1ª e 2ª classes, das sete às 10 horas, e um grupo subsequente, da 3ª e 4ª classes conforme apurou OPAÍS, quando ouviu, no local, o Professor M.T “Por enquanto, traçamos a convivência de duas classes, por cada turma, porque ainda só temos uma sala, mas já recebemos o aval do responsável pelo quintal para adaptarmos outras duas salas de aula nestes espaços”, informou António Domingos Simão Pedro, enquanto apontava com o dedo em riste para dois espaços livres a menos de cinco metros da única sala erguida, com meios rudimentares.

O instrutor primário, que confirmou a existência da turma da 5ª e 6ª classes, no período da tarde, garantiu que apesar de os alunos estarem congregados num único grupo, ele e a sua equipa tomam a devida atenção na separação dos conteúdos e no acompanhamento das partes. “Não há choque no ensino, muito menos nas aprendizagens, porque nós temos os programas e as dosificações, isso além de termos preparação pedagógica para lidar com situações desta natureza”, assegurou o Professor M.T, tendo acrescentado que conhecem e dominam as particularidades de cada criança. Quando as três salas estiverem erguidas, a ideia da equipa do Professor M.T passa por ter as 4ª, 5ª e 6ª classes devidamente separadas.

Embora receie ver o número de crianças da 1ª e 2ª classes aumentado, fruto das solicitações dos encarregados do bairro e arredores, o plano é fazer o mesmo com o turno da manhã. “Pretendemos eliminar os dois turnos, no período da manhã, para ficarmos só com um, como de tarde, porque é assim que deve ser, mas se tivermos muitos alunos da 1ª classe, vamos ter de nos desdobrar”, anunciou o entrevistado, que conta com mais dois professores na sua equipa. Questionado se ele e o seu elenco estão atentos aos novos desafios do ensino primário, que aponta para a anulação na monodocência, na 5ª e 6ª classes, António Pedro revelou que nesses níveis, as aulas já são leccionadas por dois e, às vezes, pelos três professores.

Contas que contam mais contra si

O Professor M.T disse que se a comparticipação dos pais e encarregados de educação fosse regular e assertiva, ele teria contratado mais instrutores, de modo a cobrir a 5ª e a 6ª com quatro professores, para cada um leccionar apenas duas disciplinas relacionadas. “Nós aqui cobramos uma mensalidade de mil kwanzas aos alunos da 1ª e 2ª classes, mil e 200 aos da 3ª e 4ª, e mil e 500 aos da 5ª e 6ª. Além de ser pouquíssimo, nem to- dos encarregados dão e eu tenho de percebê-los, porque conheço a condição social de muitos deles, cuja esperança da família está mesmo depositada na formação das crianças que mandam para as nossas turmas”, declarou.

Segundo ele, do pouco que se ganha aí, retira 40 por cento que usa para assalariar os outros dois professores e o resto improvisa no sustento da escola e de casa”, revelou o Professor M.T, que, nesse momento, não conseguiu evitar um sentimento de tristeza, pelo facto de as contas acabarem por penalizar mais a sua família de casa. Actualmente, o professor tem inscritos, na sua escolinha, 72 alunos. Mas, de algum tempo a esta parte, sete deixaram de aparecer, o que está a obrigar o responsável do Cantinho da Sabedoria a programar uma visita aos pais e encarregados de educação, como têm procedido, nestes casos.

Importa referir que, apesar de ter criado o projecto para ajudar as crianças a não ficarem sem estudar, António Domingos Simão Pedro lançou-se nesse trabalho para minimizar as carências diárias da sua casa. Para demonstrar que, nesse capítulo, impera mais a vontade de ajudar de quem também precisa de ajuda do que a de ganhar com esse serviço, o ‘mestre-escola’ in- formou que há dias que nem giz conseguem ter para prosseguir com as aulas. Por causa disso, giz, apagador, carteiras e materiais didácticos (manuais) constam entre as primeiras linhas da lista de apoio que os educadores do projecto Cantinho da Sabedoria necessitam, embora chapas de zinco, madeira e prego também.

Vocação de mais de 15 anos

Foi há mais de 15 anos que António Domingos Simão Pedro descobriu a sua vocação de ensinar, instruir e educar. Mas, aos 22 anos, começou por trabalhar por outros jovens da sua época que empreendiam no ramo da educação, ora por salas de explicação, ora por pequenos colégios, instalados no bairro da Marconi. “Mas, depois, quando constitui família, os salários que eu auferia já não chegavam para sustentar mulheres e filhos. Por isso, resolvi criar a minha turma, na traseira da rua da Pousada, onde até já havia uma estrutura erguida”, relatou o Professor M.T, tendo realçado que, mais tarde, o proprietário precisou do seu espaço, ao ponto de se interromper uma iniciativa que já contava com quatro anos (2017-2021).

Valendo-se da sua experiência na referida aventura de instrução primária, António Domingos Si- mão Pedro aproveitou o interreg- no de dois anos, curiosamente da ressaca do período da Covid-19, em que não reuniria condições de biosegurança de asseguramento da condição sanitária dos alunos, nas turmas, para projectar melhor o reatamento do Cantinho da Sabedoria.

“É assim que, a conselho da minha esposa, fui falar com o vizinho Manucho, a quem deixaram a responsabilidade deste quintal vasto, onde pedi para adaptar uma sala”, lembrou o Professor M.T, dando-se por contente, porque, em vez de um, o solicita- do lhe disponibilizou outros dois cantinhos, para, quando ele poder, erguer mais duas salas de aula adaptadas. António Domingos Simão Pedro é formado ao nível médio, no curso de Ciências Económicas e Jurídicas.

Entretanto, antes de se lançar no mundo da docência, optou por fazer uma formação que lhe conferisse agregação pedagógica. Segundo o mesmo, o esforço em superar-se académica e profissionalmente não ficou por aí, pois ele desafiou-se a fazer formação em Língua Inglesa, que assegurou falar fluentemente, além de ter anunciado a sua instrução avançada em informática, no capítulo do manejo do computador, na óptica do utilizador, como fez questão de referir.

Crianças de 4 anos invadem as turmas de MT

De algum tempo a esta parte, os professores António Pedro e João Cordeiro estão sujeitos a acolherem garotos de quatro anos, que acompanham os irmãos de seis ou sete da 1ª e 2ª classes. É o caso de Mirene Neusa Lukénia Martins, que já consegue dizer o seu nome completo e escrever algumas vogais. A menina disse que está a aprender muito e não vai desistir. Joel e Zekilson são outros rapazes nessas condições, superando Mirene por estarem aí, há mais tempo. Ribas António Bole tem seis anos e frequenta a 1ª classe. Informou que o seu caderno está cheio de ‘Bom’, porque ele faz bem os exercícios da aula e as tarefas de casa.

O seu colega de classe, Wami Francisco, demonstrou que já aprendeu o alfabeto português, ao recitá-lo, na presença da equipa desta reportagem e dos professores da escolinha. Já Anilda Pedro de Sousa a menina da 3ª classe, que deseja ser polícia, louva a atenção que o Professor M.T dedica a todos alunos. Por sua vez, Gilson Fernando Pereira de oito anos de idade reconheceu que ainda não está a ler, mas que o trabalho do professor indica que até próximo ano vai conseguir fazê-lo, porque já consegue soletrar algumas palavras e lê-las por sílabas.

“Nossa qualidade atraí os encarregados”

Relativamente ao aproveitamento dos seus alunos, o docente da Escola Primária Cantinho da Sabedoria reconheceu que a dificuldade do posicionamento das suas crianças, nos bancos corridos, que as obriga a escrever apoiadas ao joelho e o facto de possuírem apenas um quadro, onde vêem separadas, a meio, as matérias de uma e de outra classe contribui para a lentidão de alguns rapazes, na aprendizagem.

“Temos de dizer que é a nossa qualidade de trabalho que atrai a confiança dos encarregados de educação, porque nós acompanhamos e registamos todos os pormenores dos meninos, a fim de descobrirmos e definirmos estratégias para eles aprenderem a ler, escrever, calcular e interpretar” detalhou o empreendedor, que revelou a intenção de, no futuro, contratar (precisar) os serviços de um psicólogo escolar, de modo a ajudá- los nos casos mais problemáticos. “Às vezes notamos que as crianças carregam consigo algumas marcas da vida de adultos e isso é um assunto que nos ultrapassa. Por isso, choramos pela ajuda de um especialista em psicologia escolar, nem que for só para nos orientar”, frisou.

Ainda sobre a confiança dos pais e encarregados de educação, o Professor M.T adiantou que a mesma evoluiu para um nível maior, ao ponto de alguns estarem a pedir-lhes para haver aulas nocturnas de alfabetização e de formação acelerada ou de módulos. Quem confirma essa confiança é Branca Bernarda André cuja irmã de 13 anos de idade, que frequenta a 3ª classe, só começou a ler e escrever, quando entrou na Escolinha Cantinho da Sabedoria. “Confiamos muito na explicação dele, porque, ele e os outros professores são muito atenciosos, não demoram muito para começarem a escrever, soletrar ou mesmo ler, como é o caso da minha irmã, que estava muito atrasada neste capítulo”, garantiu a encarregada.

Branca Bernarda André revelou que quando a escolinha não estava aberta ela e outros encarregados matricularam os filhos noutras escolas, mas, depois de reaberta, todos voltaram a inscrever as crianças no Cantinho da Sabedoria. Sua irmã Delfina António Cassilamwe de 13 anos admitiu que, em relação a outras escolas onde frequentou as classes anteriores, está a aprender mais na do Cantinho da Sabedoria, porque os professores são incansáveis. A adolescente que anda na 4ª classe recuperou o sonho de ser professora para ensinar aqueles que têm medo de aprender.